Grito Rock no Correio Braziliense

Nessa sexta-feira saímos novamente no Correio Braziliense! Também dá destaque pros amigos do Coletivo Cultcha, de Taguatinga.

Confira!

Para movimentar a cena roqueira de Brasília, bandas adotam os coletivos musicais

Por Tiago Faria

Poucos episódios provocaram tanta surpresa no rock de Brasília quanto o curto período em que, no início dos anos 1980, Renato Russo empunhou um violão e interpretou as próprias canções como um caubói desgarrado. Ainda hoje, a imagem do trovador solitário parece destoar de uma vocação da capital: desde o fim dos anos 1970, as relações de amizade e cooperação fortaleceram alguns dos nomes mais importantes da cidade. De Aborto Elétrico a Móveis Colonais de Acaju, o rock candango sempre preferiu reunir-se em turmas a enfrentar o isolamento. Mas nunca se viu, pelo menos não de forma tão organizada, uma onda como a que começa a irrigar a cena local. Com uma combinação de entusiasmo criativo e comprometimento social, grupos que nasceram nos anos 2000 colocam em ação — e com sucesso — a filosofia dos coletivos de rock.

Na teoria, a ideia parece até simples: convocar os amigos, organizar shows, estimular a criação de novas bandas e, aos poucos, aquecer o circuito roqueiro da cidade. Erguer as paredes dessa utopia, no entanto, exige suor (e teimosia) de trabalhador braçal. Daí o slogan preferido dessa geração — artista é igual a pedreiro.

Propagado por músicos e produtores de Cuiabá (que, em meados da década passada, criaram um esquema coletivo de produção que revelou ótimas bandas como Vanguart e Macaco Bong), o lema defende o espírito “faz-tudo” de uma geração que nasceu em meio à crise das grandes gravadoras. Adaptar-se a esse ambiente é o principal desafio dos coletivos brasilienses Cultcha e Esquina. Os resultados estão aí: até domingo, com patrocínio da Petrobras, o Esquina organiza o Grito Rock, série de shows e palestras com entrada franca.

A poucos meses do primeiro aniversário, as duas “famílias musicais” nasceram em contextos diferentes — o Cultcha em Taguatinga, o Esquina no Plano Piloto — mas, hoje em dia, dialogam como primos com as mesmas afinidades. Filiados ao circuito Fora do Eixo (1), os coletivos têm regras de atuação muito bem definidas. “Tudo é discutido, votado”, conta Moraes, vocalista do Tiro Williams. Michel Aleixo, do trio River Phoenix, prefere definir de outra forma. “É um casamento, mas sem monogamia”, explica.

O que não entra em discussão são os dogmas estéticos: nessa jukebox, vale de indie rock (Cassino Supernova) a neo-gótico (Enema Noise). O que muda é o modo de produção. “Nos coletivos, o produtor não manda no músico e o músico não fica em cima do pedestal. Não existe mais a dualidade. É uma troca de tecnologia, conhecimento e serviços”, explica a produtora Jacque Bittencourt, do Esquina.

O ouvinte mais cético tem o direito de perguntar: esse socialismo roqueiro dá pé? Por enquanto, os resultados surpreendem até as próprias bandas. Criado para divulgar o repertório de seis grupos de Taguatinga, o Cultcha vai muito além da “ação entre amigos”: em eventos mensais (antes no Botiquim Blues, que fechou, agora no Água de Beber), apresenta bandas novas da cidade e estimula a circulação de grupos em outras cidades do DF. Em fevereiro, atraíram 3 mil pessoas no Grito Rock de Taguatinga, na Praça do Relógio. “No rock, é quase impossível caminhar sozinho. Queremos incentivar outras bandas e dar condições para que elas não sofram o que já sofremos”, observa Diego Valdez, guitarrista e vocalista do trio Valdez. Sinal dos tempos: na selva da internet (e sem os olheiros de gravadoras), os independentes criam estratégias para não serem engolidos pelo tufão de bits.

Teia sonora
“As gravadoras deixaram de ser o grande tronco que sustenta os artistas. O modelo ficou mais horizontal. A cooperação é o único modelo possível de trabalho”, afirma Jacque. O Esquina, que também organiza um minifestival mensal (no Velvet Pub, na 102 Norte) e segue rigorosamente o plano de ampliar o espaço para a música do Distrito Federal. “A ideia é criar uma cena. Essa cena que dizem que existe é de banda cover. As bandas da cidade não têm um circuito e, por isso, não conseguem se desenvolver”, observa Moraes. Para se fazer notar, os grupos aproveitam-se da teia criada pelos coletivos brasileiros e se apresenta em outros estados. No front do Cultcha, o Vitrine tocou no Grito Rock de Cuiabá e o Leda, em Anápolis. Já o Tiro Williams foi ao Grito Rock de Uberaba.

“Os coletivos estimulam as bandas a pensar no futuro. Para muita gente, são uma luz no fim do túnel”, resume Michel, do River Phoenix. Depois do grito carnavalesco, os coletivos pretendem investir em projetos sociais e sedimentar o intercâmbio com regiões do DF e do Entorno. Apesar da organização, a ordem é evitar o deslumbramento e enfrentar o lado mais trabalhoso da arte: “Ninguém pensa mais em ficar milionário com o rock. Mas há bandas que já estão começando a viver tranquilamente de música, e isso é o importante”, observa Jacque. O trabalho, como se vê, é duro. Mas, sem cultivar ilusões antiquadas, o comboio do rock de Brasília não para de crescer.

1 – Rede de festivais

O circuito Fora do Eixo foi criado no fim de 2005 por produtores culturais das regiões Centro-Oeste, Norte e Sul. No início, o projeto envolvia produtores de Cuiabá, Rio Branco, Uberlândia (MG) e Londrina (PR). O objetivo era estimular a circulação de bandas, o intercâmbio de produção e a distribuição de produtos. A rede ampliou-se com os festivais Grito Rock e Fora do Eixo. No Brasil, são 10 os festivais que têm ligação com o circuito. Informações no portal http://www.foradoeixo.org.br.

» Com iniciativas como o Grito Rock, coletivos expandem o mapa da música independente brasileira
Pedro Brandt

Segundo Pablo Capilé, coordenador de planejamento dos festivais Calango e Grito Rock e vice-presidente da Abrafin (Associação dos Festivais Independentes) na gestão 2009-2010, um dos reflexos do desenvolvimento do cenário alternativo pode ser percebido no fato de os novos coletivos, como o Cultcha e o Esquina, se beneficiarem da experiência adquirida por iniciativas mais antigas. O resultado disso são eventos que, mesmo em sua primeira ou segunda edição, apresentam um nível de excelência que os festivais mais velhos demoraram por vezes anos para adquirir. “Estamos saindo do do it yourself (faça você mesmo) para o do it together (façamos juntos). A consciência coletiva dá o alicerce para crescer de maneira mais favorável”, observa.

Capilé conta que dos 85 Gritos Rock realizados este ano, pelo menos 45 apresentaram um ótimo desempenho. “Os de Uberlândia (MG), Macapá (AP), Santa Maria (RS) e São Carlos (SP), por exemplo, se saíram muito bem. Mas posso afirmar que o Grito em Brasília está entre os melhores. Ele está sendo extremamente bem feito e com todas as características de um festival em ascensão”, elogia.

O Grito Rock 2010 Brasília vem mostrando ambição de gente grande. No começo do mês, o Coletivo Esquina realizou uma seletiva para escolher três bandas novatas para entrar na escalação do festival. E os shows que serão realizados no Parque da Cidade de hoje a domingo são apenas uma parte da programação do evento. De segunda-feira até ontem, o Grito Rock ocupou o auditório do Museu da República com oficinas, palestras e pocket shows. Eclética, a seleção de bandas dá espaço para novatos e nomes já estabelecidos no circuito independente, caso da paulistana Dance of Days e as brasilienses Móveis Coloniais de Acaju e DFC, e outros que vêm chamando a atenção mais recentemente, como os goianos Black Drawing Chalks e os baianos Vivendo do Ócio (pela primeira vez na cidade).

Intercâmbio
Com a maior circulação de bandas pelo país, ganham o público, com um leque mais amplo e diversificado de opções musicais, e os músicos, que além de mostrarem seus trabalhos para outras plateias, exercitam o intercâmbio de informações e experiências. “A gente conhece pessoas que produzem esses shows, troca figurinhas, conhece outras bandas… E eu, que estou dos dois lados, tenho a visão de banda e a de produção. A gente aprende a organizar um show, mesmo que apanhando”, comenta Moraes, vocalista do Tiro Williams, quarteto que participou do Grito em Uberaba. “O circuito do Grito Rock ajuda a organizar esse intercâmbio, mapeando as bandas dispostas a tocar pelo país e os lugares dispostos a recebê-las”, complementa Eduardo Bola, guitarrista do Tiro.

Para Miguel Martins, vocalista da banda Watson (que tocou há duas semanas no Grito de Campo Grande), esta movimentação aponta também para um nova realidade na música no Brasil. “O Grito Rock promove a ideia de que uma banda hoje precisa pensar além daquele antigo circuito Rio-São Paulo. É preciso viajar, conhecer, se relacionar, aprender alguma coisa em todas as ocasiões. Já tínhamos tocado no Grito de São Paulo há dois anos e foi uma das experiências mais importantes da banda em termos de amadurecimento e compreensão da realidade da cena independente”.

Banda brasiliense que mais toca fora da cidade, a Móveis Coloniais de Acaju é uma das beneficiadas por esses novos pontos. “Dá para perceber uma mudança grande. Temos agora um circuito que integra o Brasil inteiro. Tocamos em lugares que nunca sonhávamos, como Campo Grande, Cuiabá e Rio Branco”, lista o baixista do grupo, Fábio Pedroza.

Mesmo com conquistas é cedo para cantar vitória. A estrada dos independentes está sendo pavimentada aos poucos e há muito a ser feito. “É preciso dar continuidade ao investimento e ter consciência de que é uma ação com resultados para médio a longo prazo. Mas quem começou este ano, por exemplo, já encontrou muito mais facilidade do que quem começou há dois anos”, compara Pablo Capilé.

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Sobre Coletivo Esquina
O Coletivo Esquina surgiu voltado para atender o cenário musical indepentente de Brasília e também responder por um dos pontos da cidade vinculados ao Circuito Fora do Eixo.

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