PCult ou, como diria Arnaldo: mais louco é quem me diz

Texto: Alex Antunes

Retirado do blog http://partidodacultura.blogspot.com/2010/07/pcult-ou-como-diria-arnaldo-mais-louco.html

Durante anos nos acostumamos a pensar que a relação mais estreita entre “política” e “cultura” era o convite oportunista a músicos populares para atrair a massa desavisada aos comícios. Ou, o que é melhor, mas não muito, esses lobbies que os produtores e artistas fazem de vez em quando para garantir alguma reivindicação pontual. Os pequenos orçamentos e a relativa desimportância historicamente atribuida ao Ministério da Cultura são um retrato dessa visão banal: a do artista como um convidado até desejável para abrilhantar eventos públicos, porém um interlocutor pouco levado a sério em última instância.

Mas isso é uma falácia, um resíduo da pior jequice de nossas “elites”, e uma distorção das mais perigosas. Pois toda a cultura é “política”, no sentido de que é a visão que um povo tem e constantemente reelabora de si mesmo; o começo e o fim do processo da identidade psicossocial. E toda a política também é “cultura”, no sentido de que são os atores sociais, ao encenar os anseios do país, que rascunham o roteiro do nosso destino. Se alguns de nossos atores políticos são canastrões, isso não faz deles apenas maus performers, mas principalmente maus políticos.

Afinal, quem descreve melhor o Brasil? Tim Maia, Nelson Rodrigues, Oswald de Andrade, Gláuber Rocha, Zé Celso? Ou Maluf, Jader Barbalho, Collor, ACM, Celso Pitta, Jânio Quadros? Claro, todos descrevem. Mas a quais deles já entregamos o poder? E quais deles agiram como Marx, o Groucho, esnobando o clube que os aceitasse? É essa lógica que está sendo subvertida nesse momento. Desde que um pensador de origem contracultural como Gilberto Gil aceitou o Ministério da Cultura, mesmo com erros e acertos, um processo maior foi posto em movimento.

Surge uma crescente preocupação com questões como a da renúncia fiscal, que ainda deixa na mão daquela elite arrivista e um tanto precária a decisão de que artistas “agregam prestígio” às suas marcas comerciais, fazendo cortesia com o chapéu alheio (o nosso, por sinal). Ou não só a profunda desorganização corrupta, mas principalmente o desacerto conceitual jurídico na questão da arrecadação e defesa dos direitos autorais e de imagem.

É “cultura” um país não poder biografar independentemente suas figuras públicas, coisa essencial para a nossa autocompreensão como nação? É “cultura” os herdeiros se sentarem em cima do legado cultural de algumas de nossas principais inteligências, e estagnarem obras que ainda são tão vigorosas como seus autores, quando vivos?  Claro, essas são questões pontuais, mas bastante sintomáticas do atraso e da postura defensiva da nossa ex-intelligentzia. O mundo já é outro, e o Brasil é outro dentro desse outro mundo. Ao invés de negar estes tempos, vamos vivê-los. Rápido. Pois, como disse Pena Schmidt, a cultura é para a sociedade do conhecimento o que foi o aço para a revolução industrial.

Assim, começa a ficar mais clara a urgência psicossocial que faz emergir um “partido da cultura”, um grupo suprapartidário que converge não por oportunismo ou mesmo interesses de categoria, mas por paritlhar ferramentas novas e um otimismo ímpar e libertário ao pensar o Brasil. Esse país que, centenas de anos depois, ainda é um impasse, uma terra conflagrada, cindida por diferentes interesses e mesmo diferentes projetos de civilização. Mas que também é um cadinho maravilhoso, um laboratório de onde a até pouco suposta “periferia” da civilização vislumbra os seus avanços mais originais e arrojados.

Se hoje a “arte” e a “tecnologia” entendem isso melhor do que a “política”, reinicie-se a política. Ou: pense nos nossos políticos e lembre-se, como disse Arnaldo Baptista, que “mais louco é quem me diz/ E não é feliz”

Alex Antunes é jornalista, escritor, curador e blogueiro

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Sobre Coletivo Esquina
O Coletivo Esquina surgiu voltado para atender o cenário musical indepentente de Brasília e também responder por um dos pontos da cidade vinculados ao Circuito Fora do Eixo.

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