Watson, um bom disco em 2010.

capa Watson

Watson (2010)

por Pedro Branco

Em 2010, ano de Copa do Mundo e Eleições, ouvi dizer que uma banda da cidade estava lançando um disco. Watson. Uma pequena banda de Brasília – nossa capital – que se lançou à cruzada que é gravar um disco em 2010. O disco reúne 12 faixas originais, que passeiam pela trajetória da banda, iniciada em 2002, quando a primeiríssima formação da banda disparou um processo que culmina no lançamento de seu primeiro álbum justamente este ano, já tão preenchido (já que esta cidade encosta, inteira, à beira da estrada para ver qualquer caravana passar, e depois volta ao tédio da superquadra, da lei seca e dos mesmos e vazios dias da semana).

Se Brasília é assim tão pequena, como deixamos passar tão despercebido o som produzido por estes 4 músicos fantásticos? Talvez seja porque todo bloco sabe o quanto tem pra saber, e ninguém sabe ir além do bairro em que foi criado. Talvez seja até por isso que nós (digo, vocês), brasilienses, enchem tanto a boca pra dizer que a cidade que nos cerca não tem identidade, não tem cultura, nada pra fazer.

OK, não tem mesmo nada pra se fazer. Mas nós sempre vivemos com isso, e a cada geração que entra, os problemas parecem os mesmos, porque toda estrada parece igual, mas não é. E ainda bem que não é, porque é desse tédio e do sentimento de crescer em uma cidade adolescente que brotam as letras do vocalista e guitarrista Miguel Martins. Não acredito em bons poemas: a poesia é algo como um gás, que se pode pegar emprestado, soprar na superfície de qualquer folha de papel na tentativa de impregnar dela as palavras que escolhemos – e que depende só do quão fundo conseguimos respirar. É assim, de um fôlego só, que as letras, simples e poderosas, nos atingem por sua sinceridade, força, e por, às vezes, beirar o banal de todo dia, nos parecendo, assim, estranhamente familiares.

Jack, Adriano, Filipe e Miguel

Jack, Adriano, Filipe e Miguel

Os arranjos são cuidadosos e detalhistas: não ficam devendo nada a grandes bandas, e, embora possamos facilmente associá-los a algumas de suas fontes de inspiração, o Watson cria para si uma indumentária sonora bastante peculiar, que rasga a roupa a golpes de palheta, tentando descobrir sua identidade. Assim como Brasília, afinal, uma adolescente em crise, que todo mundo diz que não tem nada pra fazer, mas que eu acho que já está na idade de sair quebrando tudo e tirar leite de pedra pra se divertir, porque tão dizendo que falta cultura nesta cidade, é porque tá todo mundo caçando alguma caravana pra ver, ao invés de viver, crescer e, quem sabe, morrer BRASILIENSE. De verdade.

Não ligue a TV. Não leia os jornais.

Use. Abuse. Esprema.

Ouça.

Ouça “Quitinete”, “Notícia do dia 3” e “Bolero”, na minha opinião, os pontos altos do disco. “Quitinete” tem um riff fantástico, todo redondo (e pop), mas não deixa de dar espaço a um som mais experimental, como também em “Notícia do dia 3”, um quase noise, que me fez pensar em Sonic Youth (aliás uma constante discreta ao longo de várias faixas do álbum) porque tem um peso muito interessante e aquela pegada riot rock dos anos 90. “Bolero” já é mais tradicional, uma baladinha mais estilo “Creep”, mas a letra é fantástica. Aliás, pela letra eu ressalto “Emitivi apresenta”, algo como um manifesto bem claro a respeito da forma como as coisas acontecem no mundo da música, cuja antítese talvez seja “Tupanzine” (uma fotografia batida em um show fracassado?), uma realidade muito mais próxima do cenário musical de Brasília, hoje.

O disco é muito interessante, e nele se percebem momentos muito claros em termos de amadurecimento musical. Nele se encontram a força que impulsionou o Blur, a pegada dançante de Franz Ferdinand, a influência forte do pós-punk. Os elementos estão à procura de identidade. Mas é uma trajetória fascinante.

Watson (2010)

o disco da Watson se encontra disponível no site oficial da banda.
http://www.bandawatson.com.br/

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2 Responses to Watson, um bom disco em 2010.

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