Guitarrones Camaquestra Orquerrística. uma explosão no Rolla Pedra.

por Pedro Branco.

Nesta edição do Rolla Pedra, tive a oportunidade de não assistir ao show dos Camarones Orquestra Guitarrística (devido ao intenso trabalho no backstage com entrevistas e making of do evento). E a experiência de não assistir me pareceu assustadoramente quase tão legal quanto deve ter sido a de assistir.

Pareceu absurdo?

É que, enquanto eu estava correndo que nem um desgraçado – aliás, mais do que o que eu achei possível dentro daquele espaço, que não parecia tão grande assim -, freqüentemente eu sentia minhas orelhas começarem a sangrar do nada, como se tivessem sido atingidas por um martelo, de forma que, como única forma (auto-prescrita) de tratamento, várias vezes eu simplesmente parava na frente do telão e pensava comigo mesmo: “tá, eu TENHO que saber quem são esses caras”. A música me fuzilou pelas costas, e, assim, descobri o prazer de admirar uma banda não-assistindo ao show. Uma forma confusa, mas gostosa, de viver música.

E foi assim que aconteceu com eles.

E aconteceu de entrevistá-los, e, como em outras oportunidades que tive, tendo contato com as diferentes bandas que admirava, expressei meus elogios da seguinte forma:

“Ow, o som de vocês é do caralho!”

Para que não ainda não conhece, o Camarones Orquestra Guitarrística é uma banda instrumental de Natal, formada em 2007. O som deles mistura rock, surf music e com certeza tem alguma influência de jogos de video-game (em especial aqueles mais antigos, estilo Sonic). Alguns dos membros da banda trabalham com produção musical, e eu percebi bastante maturidade da parte deles em relação ao cenário de bandas independentes. Um pessoal muito fino, devo dizer.

Bom, logo depois do Rolla Pedra, tratei de baixar o disco dos caras o mais rápido possível. São 11 composições que variam bastante em termos de pegada, viajando desde um rock mais agressivo com forte pegada setentista até um som mais alegre e leve. E esse disco bagunçou ainda mais a minha cabeça.

Motivos?

Em primeiro lugar, o fato de se tratar de uma banda instrumental de rock já causa um certo estranhamento. A música instrumental, por muito tempo, ficou quase restrita ao jazz, ao choro e aos estilos mais eruditos, desde composições para orquestra/música de câmara até peças para violão de Villa-Lobos, que, apesar de incorporar elementos regionais e tudo mais, ainda assim era um compositor sofisticado. Quando o rock ganha espaço como estilo instrumental, isso acontece através de uma fagocitose da complexidade da música mais erudita, como se vê nas composições do Yes, Emerson Lake & Palmer, etc. e, ainda assim, o caráter instrumental era em determinadas músicas, não em uma banda.

Mas mesmo em bandas de rock instrumentais, como o Liquid Tension Experiment, se percebe muito claramente a influência da música acadêmica. Talvez o rock, um estilo considerado menos elevado que, por exemplo, o jazz, estivesse procurando legitimidade na complexidade, mostrando que “sim, nós podemos ser tão estudados quanto vocês”, como se música fosse estudo, etecétera e tal.

Essa galera do Camarones chegou quebrando tudo, mostrando um álbum composto por músicas simples, mas poderosas, que se estruturam de forma bastante coesa (o que já é difícil para um álbum vocal), inclusive extirpando a sisudez clássica ao estilo. Eu tenho a impressão que todos os músicos dão suas gargalhadas no meio das músicas, porque elas não são pretensiosas: são simples e divertidas (mas não fáceis ou vazias), e, talvez seja por isso que seja tão agradável de se ouvir tanto ao vivo quanto no disco. Não é mais necessário ficar admirando o músico, observando sua técnica enquanto o filho de Deus executa sei lá quantas notas por segundo, deixando a platéia babando e achando que instrumental serve como templo de adoração do virtuosismo. B. B. King, o rei, já dizia que o importante é encontrar uma nota que valha mais que 20 (parafraseei, foi mal) e o nosso maestro João Carlos Martins (conheçam a história dele!): “antes eu fazia 21 notas por segundo. Agora, faço uma nota a cada 21 segundos e sou feliz do mesmo jeito”. Simples.

Me atraíram, de cara, as faixas “Sweet Família Adams” e “Em Apuros”, que abrem o disco: duas levadas diferentes, uma mais pesada headbanger, a outra mais groovezada tipo “No One Knows” (QOTSA). Mas dou destaque também à impressionante “Drunk Driver”, que tem esse lance setentista de riffs com pausas, estilo Blue Öyster Cult e Lynyrd Skynyrd, com a levada de batera comendo reta, que é algo que eu curto, mas que adiciona o toque de mestre que é o apito, que parece conduzir um frevo-rock n’roll-motorista-embriagado.

Mesmo com a cabeça a mil e dando voltas, as recomendações são claras:

OUÇA ALTO.

Eu baixei o álbum no site do Festivel Dosol:

http://www.dosol.com.br/cds-virtuais/camarones-orquestra-guitarristica-2010/

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Sobre Octavio Schwenck Amorelli
geógrafo músico cineasta

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