Na capital do inferno

Na capital do inferno, dez pras dez. Disseram que hoje, a noite ficaria mais quente, com um certo ar seco e abafado de cerrado misturado com as golfadas de enxofre que sairia do portal para o inferno que se abriu no Cult 22 Rock Bar. Nos travesseiros dos que vieram ontem, o sangue ainda estava úmido, e talvez houvesse um toque de ressaca, um gosto amarelado na boca seca, de quem gritou e gritou, através de nuvens de cerveja e sonho. Os que retornaram foram corajosos, e isso prova que hoje só vai dar maluco. Porque só de olhar a programação já rola medo.

Para atender as autoridades, enviamos um sinal de emergência para os principais hospitais de Brasília, e avisamos: hoje, quem não cair duro vai precisar de cuidados intensos.

E na capital do inferno, o Sangue Seco invade o palco e o transforma em um show com cara de SESC Garagem, moendo o ar que ora respiramos, ora faz tremer nosso corpo inteiro. A performance deles é muito divertida, energética, com o Sr. Eduardo Inimigo do Rei sempre atacando o público com um confronto cara-a-cara, não importando se são oito ou 48 cabeças. Perguntas, histórias, piadas. São quatro amigos, que, juntos, cantam sobre a morte do prefeito, a breve morte (?) do vocalista, uma certa Villa Morena de Portugal…

Eu realmente queria encarar esses caras em uma mesa de bar.

Bem, então entraram os caras do xLost in Hatex, e foi pauleira. Já tava difícil de andar entre o público (uma bela piscina humana: pela hora e pelo estilo da noite, uma supresa boa), ainda mais com aquela doses de adrenalina, testosterona, agressividade e massa sonora, que propulsionou o público em direção à beirada. Nossos corpos não deixaram passar despercebido os golpes, e mesmo quem não encostou em outro corpo deve sair daqui todo roxo.

Infelizmente, outra ocasião para uma despedida.

Esta puta banda perde um vocal pras coisas da vida. É assim mesmo, a corrente arrasta as pessoas por entre vários caminhos, e, às vezes, os caminhos vão se afastando e não tem nada que se possa fazer. Para os não-amigos (talvez fãs), basta um nome: Henrique. Só os que estiveram juntos estes anos todos sabem o peso de um membro que se vai.

Mas deixando de lado todos os motivos de tristeza, chegou a vez do Mugo de quebrar tudo, e eles não deixaram por menos. Colocaram todo o peso possível depois de ter passado por BH, Taguatinga e, agora, pelo Lago Norte, fechando a primeira participação da banda em Brasília. Uma banda orixá da guerra, que colocou pra fuder em cima do palco,

sem mais nem menos.

Daí o Uganga entrou no circuito. A banda mineira, que já rodou Brasil e Europa, ficou bem à vontade no modesto palco, na verdade um infinito, que lhes foi dado. Eu, já anestesiado, consegui sentir a madeira vibrando sob meus pés, entre socos e pulos; e eu que já tinha explorado cada parte do espaço deste lugar, encontrei um ponto onde todos os humores se concentram. O ápice, pra mim, foi a homenagem ao Sepultura, a irmã mais velha das bandas de Minas, inspiração para muitas outras bandas brasileiras de metal. Uganga: um rei, uma entidade. Guerra, força, paixão, uma história boa. Uma banda para ser respeitada.

Já o show do Moretools foi o primeiro que eu assisti inteiramente da cabine de som. Outra experiência, deu pra analisar a postura dos caras em palco e o som com toda a sobriedade que me restou. Um bom show, no qual eu senti falta de público. Tinha espaço, mas nenhuma rodinha surgiu: um vazio, uma ausência.

Mas quem precisa disso?

O Violator com certeza não precisou. Mesmo com o público ali, alucinando, os caras fizeram o show que eles vieram fazer. Vieram tocar as músicas que fez da banda uma referência no cenário metaleiro de Brasília.

Objetivo cumprido: reduzi a resenha pela metade. Amanhã eu escrevo tudo em um parágrafo. Respondam aí, ficou mais palatável?

Ainda a tempo: RECORDE DE PÚBLICO (possivelmente da casa, e do Grito Rock Brasília 2011 até agora). =)

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Sobre Octavio Schwenck Amorelli
geógrafo músico cineasta

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