Acabou chorare

Foi foda!

Ok, tem que ser muito estúpido pra tentar resumir tudo em uma frase ou parágrafo. Vamos começar de novo.

Senhoritos e senhoritas. Este show que agora começa é um espetáculo de pornografia.

O Besouro do Rabo Branco não consegue ser discreto ao subir no palco. A começar pelas marcas únicas não-registradas que fazem da banda uma trupe, um circo, uma experiência para quem quer, além de música, uma trip de luzes, vozes, timbres e idéias. Seja uma saia, um óculos escuros no meio da noite, uma garrafa de qualquer bebida – ou então riffs simples, mas absurdamente bem trabalhados, uma quebrada inesperada no compasso, taquicardia súbita e incontrolável – tudo na performance dos caras conduz a um êxtase total de música e teatro. Para quem, como eu, conheceu a banda nos festivais universitários, se torna impossível dissociar tanta performance da escola teatral que acompanha a história desses quatro caras. Além de um show divertido (e eu digo DIVERTIDO pra caralho!), a música não é simples: o compromisso com o bom som, que tem influências no progressivo e no jazz, por exemplo, enriquece algo que, só pela graça, já é foda. Nada de composições óbvias, nada de deixar o espectador adivinhar o que vem depois. Cada vez que você se pega querendo algo, eles te surpreendem com algo novo, diferente, algo que só poderia brotar das cabeças anormalmente mágicas de acrobatas da música, do circo, do teatro, da rua, dos discos, do futuro e do passado. Como adoradores de Baco, eles não podiam deixar de ser assim: únicos no palco, a cada vez, espetáculo a espetáculo.

Os Hellbender já foram outra história. Eles subiram no palco e mandaram um som mais cru, jogando a última noite do festival para outro lado, uma pegada mais hard-grunge-rock n’ roll que não quer ou precisa de qualquer outra coisa no palco além de pilha, porrada e marteladas. Foi um show do caralho, e eu que assisti da cabine de som (quase um púlpito do sagrado som) senti algo próximo de vergonha por não ter conhecido as músicas da banda antes do show.

E aí, eu vou pro chão?

TODO MUNDO FOI PRO CHÃO com o show do Trampa. Mesmo eu, que nem curto tanto o som da banda, tenho que admitir que foi demais! Uma interação linda entre todos os integrantes, uma intimidade de todos entre si e com seus instrumentos, que foi simplesmente contagiante. Não dava pra ficar parado, e foi isso que provou o público, talvez (e provavelmente) o mais agitado e empolgado do festival inteiro. No final, o vocalista, que estava com o pé quebrado, levantou e ficou em um pé para pular, cantar e fuder com o resto da saúde da galera. E depois de tocar seus hits como “Te Presenteio com a Fúria“, vieram as referências universais como Rage Against the Machine e Slipknot, que fizeram todo mundo (inclusive eu, do meu quadradinho da cabine de som) pular e pirar, pirar demais, cantar, se esgoelar e esquecer que amanhã é segunda-feira.

Mas por hoje, foda-se. E depois do show do Evening, foda-se mesmo! Porque os caras mandaram muito, fizeram um show do caralho. Fizeram a gente lembrar do que este festival é feito. Ele é feito de garra, força e paixão. Foda!

Daí veio o Valdez (os filhas da puta do Valdez). E foi a primeira vez neste festival que eu filmei uma banda. Eu sinto que toda vez que eu filmo uma banda, é como se eu estivesse elevado, eu fico instantaneamente bêbado, alto, doido. Filmar é como estar em outra dimensão, em que só existe a sua visão, feita de dois olhos e coração e cabeça (este último, só as vezes) e a outra coisa, o ser filmado, algo para ser lembrado por todos e venerado como um totem por quem esteve lá pra ver através de lentes e sensores. E quem conhece Valdez sabe que os caras não estavam lá pra brincar, eles estavam lá pra enlouquecer, pra ir de vez pro manicômio, pra mandar todo mundo pro buraco, pra gravar um nome de seis letras simples nesse mesmo buraco. Valdez.

E os Black Drawing Chalks fecharam a última rodada de shows deste festival. Eu acho muito bonito ver uma banda de Goiânia, nossos vizinhos, tão grandes, titãs em cima do palco. Um show esperadíssimo, que fez pessoas flutuarem sobre outras pessoas, que criou um buraco negro sob o palco onde todo mundo se encostou, se esbarrou, se atravessou. Vozes cantando, mãos que dizem mais que vozes, olhos que exprimem mais que mãos. Um trabalho conjunto que junta vários talentos em um conjunto de sons complementares, opostos, harmônicos, desconjuntantes. Tenho a ligeira impressão que todos sairão daqui com sensação de um intenso e completo orgasmo.

E assim, chegamos à última noite deste festival, o Grito Rock Brasília 2011. A última noite, tão esperada como uma lua-de-mel, algo que concretiza algo que era só um sonho. Nós fizemos, e cada um que apareceu por aqui, apesar da chuva, da hora, ou talvez da incerteza, fez também. Somos todos responsáveis por este sucesso, por estes quatro dias que abalaram nossas rotinas de vida, filhos, trabalho, almoços de família. Quatro dias que mudaram rumos, que deram a uma cidade outro ar, outro trânsito, outra dinâmica. Quatro dias que nos fizeram querer correr, sofrer, matar e morrer, viver e compartilhar. Gritar!

Quatro dias que acabam. Quatro filhos. Para quem participou da produção, são quatro partos. E agora, é hora de deixá-los ir. Quatro filhos desmamados, buscando seu próprio caminhos, enfrentando as intempéries da vida: as dificuldades de se fazer rock nesta cidade, neste pais, neste mundo. A dureza de se enfrentar a estrada sem ter onde dormir, sem saber se realmente valerá a pena. Mas valeu.

Eu abandonei a minha cidade natal e vim correndo (voando) pra cá. Acreditem, eu sei do que estou falando.

Hoje eu joguei fora a minha passagem de volta do Rio. Ela estava me acompanhando, incólume, dentro da minha carteira. Mas agora, tanto faz. Estou em Brasília, e estou feliz. Estou feliz por poder compartilhar com esta população que eu não conheço um tanto de rock e um tanto de sonho. Esta é a minha cidade, é aqui que eu moro, e é aqui eu quero construir metade dos meus sonhos. E a outra metade nunca vai se tornar realidade.

É isso que faz de mim um sonhador.

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Sobre Octavio Schwenck Amorelli
geógrafo músico cineasta

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