Vontade de Potência, uma resenha sobre o Grito Rock Brasília 2011.

Vontade de Potência

Por Antônio de Luna Nogueira
Passagem de Som.
Cheguei na passagem de som. O convite para resenhar um dia de Grito Rock havia sido feito por Fernando Jatobá na quinta feira, logo após o show do Turrón. “Resenha a gente amanhã?” ele perguntou. E eu topei, marquei e furei. Foi assim que começou.

No dia seguinte, sábado, liguei e expliquei porque não havia ido. “Tranqüilo…” ele disse, “toma seu tempo.” “Beleza,” respondi, “mas hoje vou lá!” E furei de novo.

Agora, cá estou: sentado no Cult22 Rock Bar para assistir o último dia de Grito Rock Brasília 2011. É uma questão de honra! Não ia perder minha chance de dar vida à minha verve Lester Bangs (ídolo!)… E fora isso, eu tinha sido convidado, né? Convenhamos que um pouco de compromisso faz bem.

Retomando: cheguei ainda na passagem de som da primeira banda. Encontrei-me com o Octavio e a primeira coisa que ele me disse é que a noite anterior tinha sido das trevas. Lamentei não ter ido e, conhecendo o lineup daquela noite, não duvidei de suas palavras: afinal, o diabo ouve metal e seu filho é o Ozzy – ou assim dizem…

Enfim, enquanto esperava do lado de fora, sentado e rabiscando um par de idéias – esboços desta resenha – ouvi coisas interessantes na passagem de som da banda cujo nome, até então, desconhecia (mais tarde reconheci a banda: tinha escutado uma canção deles numa coletânea da “Sete Produções”). O batera estava levando uma pegada Bonhamesca. “Isso promete” pensei com cautela. Daí, acabei meu refrigerante cítrico e fui atrás de outra limonada um tanto mais alcoólica.

A partir de 21 horas.
A casa está bem mais cheia do que antes. Conversas à mesa, palavras saem enquanto entram cervejas. As pessoas vão chegando e reconheço rostos familiares que desfilam pelo local. O Tuzão está lá, o Marcelo, Igor Kawka, Rudá, os caras da 14 (dois Brunos, um Sud e um enorme Kapassa, sentado ao lado do palco), Aloízio Michael e Jamil Chequer… E nisso tudo, passa o Fernando Jatobá, de vez em quando, de um lado pro outro, fala “oi” discreto e vai nessa, continuar a produção. Converso um pouco com Marcelo, que me revela enfim o nome da primeira banda (sendo que a lista com o lineup esteve logo ao meu lado o tempo todo… Mas assim perderia a graça, não?)

Besouro do Rabo Branco
A sala estava um pouco vazia quando o Besouro subiu ao palco. Esse é o carma inevitável de primeira banda… Mas quem leva a pior mesmo é a platéia desatenta, que acaba por perder parte do espetáculo, do “Espetáculo de Pornografia” anunciado pelo vocalista.

Um rock bem trabalhado, com temperos progressivos, mudanças de andamento e pausas expressivas, tendo como base instrumental um eficiente e preciso power trio somados a um teatral cantor de saia e óculos escuros. Com uma fórmula assim, o resultado só podia ser, no mínimo, intrigante! Enquanto a sala ia enchendo de curiosos, uma guitarra com firmes raízes bluseiras deslizava no slide, enquanto letras escorregadias sobre a gênese trevosa da política insinuavam-se em meus ouvidos feito uma liturgia demoníaca:

Será que o político inventou o Diabo?

Será que o diabo inventou o deputado?
Mais adiante, minhas premonições Zeppelinescas provaram-se corretas: aquela canção ouvida durante a passagem de som revelou-se uma mistura de Led Zeppelin, Nação Zumbi e algo de Rage (ou assim parecia na hora…) tendo como liga o próprio estilo dos músicos. A energia toda era canalizada com precisão através da guitarra, do baixo e da bateria em ataques precisos e vigorosos, transições inesperadas, porém limpas e muito bem articuladas. “Um começo de noite promissor” pensei.

Hellbenders
A segunda banda era visceral, lembrando muito daquele Motörhead do “Ace of Spades” em alguns momentos, sobretudo na performance do vocalista, que urrava feito um Lemmy Kilmister do Goiás, vindo direto do inferno depois de espantar o capeta com um berro lancinante – ou um grito de berrante… Lamentei por minha nuca enquanto mandava um headbang tão frenético quanto os fraseados brutais da bateria.

E quantas reminiscências dos anos oitenta thrash nos backing vocals gritados em uníssono! Quanta força e presença!

A crueza enérgica e descompromissada da banda – somada à luz estroboscópica e minha terceira caipiroska – atribuía um caráter prazerosamente apocalíptico ao que poderia ter sido apenas outro domingo brasiliense, com horas marcando ponto burocraticamente até o calar do dia.  Era uma deliciosa lambança sonora distorcida, lembrando o épico álbum “Raw Power” dos Stooges. Um Rock Monolítico!

A platéia assistiu tudo do começo ao fim. Sua aprovação era visível. A minha também. Afirmo sem titubear: foi minha banda preferida.

Trampa
Enquanto Trampa se instalava no palco, preparava seus instrumentos e tralha e tal, encontrei um camarada meu chamado Bento no meio da baderna. Ele olha para mim e diz: “Presta atenção no batera do Trampa. O careca tem uma pegada sinistra.”

Guiado por suas palavras, fui lá ver os caras. Mas, curiosamente essa não foi a primeira coisa que percebi quando os ouvi. Na verdade, o primeiríssimo atributo que notei na Trampa é a coesão dos músicos. Todos eles canalizam, através de sua distorcida polifonia, uma única intenção, algo como o instante logo antes – ou logo depois – de um punho acertar uma face, como aquela capa do Pantera.

A banda, contudo, também cria vários momentos de “porrada melodiosa”, ou seja, uma base sólida e pesada com um vocal expressivo regido por uma bela linha melódica. E a platéia recebia cada murro/música com entusiasmo, estimulando a banda cada vez mais.

Aliás, agora cabe falar do batera: o Bento tinha razão. O careca é um monstro, “tem uma pegada sinistra” mesmo. E o breve mosh pit que se formou, com explosivos movimentos precisos e ritmados, era indício da potência do batera, da imponência de seu pedal duplo.

O cantor estava sentado, por conta de um gesso ou algo assim (não consegui ver…), mas sua voz e presença se fizeram notar, arrancando gritos de aprovação.

Evening
A 4° banda era um power trio. A primeira coisa que pensei, enquanto bebericava um Jack (passei da vodka ao Bourbon), foi em “I wanna be your dog” dos Stooges, lá do primeiro álbum da banda. Mas na Evening, o vocal é mais arrojado, mais moderno, rasgando a base instrumental que, por sua vez, segurava tudo com pesados riffs hipnóticos.

Uma sonoridade sólida, sem hesitação: a cozinha possuía um talentoso Chef na batera e um consistente baixista – vocalista, além do mais. O guitarrista, armado de uma bela Gibson SG, solava com competência e mantinha a goma no bagulho todo com seus riffs e power chords cheios de saborosas microfonias. Um show com muita garra, pouca firula e muito rock. A mensagem foi clara, distorcida e, por todos, ouvida.

Valdez

Valdez montou numa baleia cachalote e zarpou oceano afora! Os caras abriram com “Moby Dick”, homenageando os mestres num breve tributo que logo se transformaria na primeira música autoral do show. Sábia escolha, sabiá!

Quando a banda pediu à platéia para acompanhar o ritmo batendo palmas, ela prontamente reagiu, formando um pequeno mosh pit logo na frente do palco, enquanto os músicos prosseguiam com seus riffs de guitarra e fraseados de baixo e bateria nervosos.

A cada nova música, os espíritos trôpegos (como eu e meu Bourbon) se animavam: uma batera cheia de tons, um baixo setentista e uma guitarra solando com uma distorção maravilhosamente porca! Um show em alto volume, com pratadas épicas, efeitos espaciais na já distorcida guitarra e vários berros empolgados da platéia.

Uma das composições da banda merece destaque: “O Pagamento de Bill.” A canção é sobre como a banda foi paga em LSD por um show que fizeram. Gostei muito do trabalho rítmico e “riffico” da guitarra, com a cozinha ajudando a guitarra a alçar vôo como algum maldito albatroz lisérgico. Deveras um belo tema instrumental que, por mais disparatada que possa parecer a comparação, me lembrou de Syd Barrett. A música era dissonante, gutural e linda…

Agora, se o ácido era assim também, eu acho que não teria curtido tanto… No caso de psicodélicos, prefiro uma lisergia mais natureba.

Black Drawing Chalks
A banda fez jus a o renome que vem conjurando. A platéia estava abarrotada, ouvindo tudo de olhos vidrados no show. Parecia – de alguma forma – a síntese dos shows vistos esta noite, a apoteose roqueira: intensidade, precisão, energia e coesão aliados todos a um certo poder dançante, um certo rock n’ roll que, além de ser uma antiga gíria negra para sexo, significa, assaz literalmente, balançar (to rock) e rolar (to roll) em ritmo. E isso, os Black Drawing Chalks tem: um show intenso e dançante, um rock que, graças à sua maturidade musical (timbre, execução, volume etc.), se diferencia de outras meras brincadeiras sacanas de meninos com guitarras (só pra constar: nenhuma banda da noite estava de molecagem!)

É isso que eu vi e ouvi: Black Drawing Chalks anima a platéia – com direito até a crowd surf – servindo-se criativamente de todo o repertório de cacofonia expressiva que o rock tem a oferecer: tudo isso com velocidade e distorção. E lá vem um segundo crowd surf, um terceiro… A platéia entra em delírio, grita, berra, urra; as paredes ribombam fraseados musicais; os tímpanos enlouquecidos vêm abaixo…

Cada nova canção é recebida com crescente entusiasmo. “Até onde é possível ir?” eu me perguntava. Mas para que responder? Era melhor ir até o final e ver aonde chegaria. E, sabe o quê? Não lamentei um só segundo. Tremendo show. Tremenda noite.

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Sobre Octavio Schwenck Amorelli
geógrafo músico cineasta

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