#festivalcasarao – O silêncio é cúmplice!

Por: Eduardo Mesquita, o Inimigo do Rei

Fonte: http://www.ogritodoinimigo.com/

Dizem que o esporte nacional é o futebol. Mentira. Digo isso até mesmo em treinamentos, o esporte nacional é a “terceirização de fracassos”. Nunca ouviu falar? O sujeito quebra a cara, as coisas não dão certo e logo ele encontra alguém para carregar a cruz:

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– Com um governo desses não há quem aguente!

– Meu gerente, aquele mala, me enche o saco o dia todo!

– Minha mulher, é um peso na minha vida, não consigo sair do lugar!

– Meu vizinho põe meu nome na macumba toda semana!!

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E a quantidade de sapos vai diminuindo sistematicamente a depender do seu vizinho, então. O fato é que se a vida do sujeito vai bem, mérito dele. Ninguém dá sucesso de presente. Mas se vai mal, culpa dele, ninguém fica arrumando problema para os outros. O diabo é quando você faz sua parte, trabalha de forma organizada, sistemática, profissional, cuidadosa e aí surgem em seu caminho pessoas incompetentes, burras, mal-caráter e safadas. Aí não se trata nem de terceirizar as culpas, mas de sofrer em silêncio por pecados que não são seus.

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Peralá, eu falei sofrer “em silêncio”? Fica em silêncio quem quer, porque quem não quer solta a goela, mete a boca no mundo e faz um regaço no juízo de pilantra. Amigos e comadres que me leem, o propósito desse texto é justamente arregaçar o verbo por causa de uma safadeza gigante que está acontecendo.

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E nem estou falando dos filhadaputa que roubaram a loja do Compadre Porkão lá em Palmas, porque nesse caso entendemos ser bandidos realmente e o caso é de Polícia. Cabe comentar que todos aqueles que estiverem na esfera gravitacional de Palmas nos próximos tempos podem ajudar muito ao Grande Porco frequentando o espaço, indo aos shows (vai ter o Zoe Festival Cultural nos dias 18 e 19 de março, vai ter Matanza no dia 09 de abril, vai ter o Rock pela Boca no dia 23 de abril e o 8 Tendencies Rock Festival nos dias 5, 6, 7, 13 e 14 de maio), tomando sua cerveja e prestigiando a arte e a cultura da terra, ou de outros planetas, não importa. O fato é que o Porco foi roubado, estouraram a loja dele, levaram um monte de coisas vendíveis e coisas de trabalho e o único apoio que o cara quer é que o deixem trabalhar para recuperar o que foi levado. Nesse caso teu apoio é presença, é sacar quem está vendendo material barato pela região e mais presença.

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Agora quando a filhadaputagem vem de órgãos públicos, aí o cidadão que existe dentro de você poderia criar um pouquinho de vergonha e se mexer na poltrona macia da sua vida. Quando a canalhice vem de instituições sustentadas pelo nosso dinheiro (em impostos, multas e tarifas) que deveriam ter o único cuidado de prestar um serviço que presta, aí ficar calado é concordar com a safadeza. Por mínimo que seja, por mais tímido que possa parecer, seu grito não pode ficar preso. Nessa hora vale Orkut, vale twitter, vale Facebook, vale tudo, porque de um jeito ou de outro as vozes se unem e fazem coro.

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Ainda não sabe do que eu estou falando? Então leia primeiro a matéria do Diário da Amazônia –http://www.diariodaamazonia.com.br/diariodaamazonia/index2.php?sec=Cultural&id=9411 – e entenda o que está acontecendo.

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O Festival Casarão, com mais de uma década de bons serviços prestados ao rock e à cultura em geral corre o risco de não acontecer por culpa da inadimplência da prefeitura de Porto Velho. Sim, é isso mesmo que você leu. Inadimplência, falta de pagamento, cano. Não vou me ater aos detalhes do fato ocorrido, até porque a matéria do Diário da Amazônia é perfeitamente detalhada e deixa claro os pingos e os Is de toda a questão, não quero repisar o que já aconteceu, mas pensar no que pode acontecer.

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Um festival com mais de uma década gerando renda, trabalho, entretenimento e diversão para uma região foi negligenciado e tratado de qualquer jeito pelo poder público, o que acontece então é que a próxima edição do festival corre o severo risco de não acontecer por causa dos não-pagamentos do evento anterior. E aí olhem em volta: quanto dinheiro é gasto em situações ou grupos que não possuem a mesma relevância?

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Pensem no montante gasto em atividades que não geram tanto resultado, mas que possuem grupos organizados por trás. Pensem ainda no montante gasto com compadrios e comadrios, amigos e amigas do rei, gente que se beneficia da aproximação com quem guarda o cofre para se dar bem. E se alguém pensar em Maria Bethânia e seu blog milionário, começou a acompanhar a linha do raciocínio. Se alguém pensou na postura do ministério da cultura com relação ao Creative Commons também vê algo se desenhando. Se alguém pensa nos vereadores que derramam verba em grupelhos mambembes e descompensados pelo simples motivo da quantidade de votos comprados na iniciativa, então falamos a mesma língua.

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Isso acontece com um festival de rock por causa de gente como eu e você. Gente que não tem a vergonha de arrotar em mesas de bar que “não gosta de política” e que “político é tudo ladrão” maculando a ideologia e o idioma também. Gente que prefere criticar os que usam recursos públicos ao invés de participar e também produzir se valendo da contrapartida de nossos impostos. Gente que acha bonito ser doidão, mas que ignora o suor que mantém as engrenagens lubrificadas.

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Isso acontece com um festival de rock porque o povo do rock é tonto. Porque não existe a necessária união e participação coletiva que tanto falamos em nossas letras e em nossos hinos. Aposto qualquer um dos meus rins que na hora que essa notícia da possível não realização do Casarão foi publicada muita gente pequena achou bom, se vingando com o pau dos outros pela competência de alguns. A desunião e a fogueira de vaidades que é o rock já deu sinais de autofagia muito tempo atrás, não é novidade, mas agora ocorre um fato novo que pode mostrar que “eles” entenderam que “nós” somos desunidos e por isso, fracos.

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O que a prefeitura de Porto Velho fez foi meter uma bolacha na cara dos tais “roqueiros” do país inteiro. O que a prefeitura de Porto Velho fez foi passar a mão – com gosto e força – na bunda dos tais “roqueiros” do país todo.  Curtiu com a cara dos camisas-pretas, indies e alternativos, mostrou que não dá a mínima sequer para nossos votos. Olhem a que ponto chegamos, pessoas, nem nossos votos interessam aos donos do poder. Viramos estatística, viramos traço no radar, viramos nada.

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O que acontece hoje com o Festival Casarão pode acontecer com qualquer festival do país. Mesmo que não seja uma prefeitura, mesmo que não seja dinheiro público, mesmo que não seja recursos de leis de incentivo, o que a prefeitura de Porto Velho fez abre o perigoso precedente de “enfia o pé, eles não reclamam”. Pode chutar, é tudo cachorro morto!

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Seria irônico, se não fosse triste demais, mas nesse aspecto a patética “Família Restart” é mais perigosa, porque os vídeos de reclamação se tornam virais, a web fervilha quando algo acontece com essa tribo colorida e sem jeito. Nós, os roqueiros altaneiros e sabidos, donos da experiência e do direito de fazer barulho, nós somos umas bestas completas quando se fala em organização e união. Nosso discurso não sobrevive à terceira cerveja.

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Estou em Goiânia, milhares de km de distância, mas alguma coisa precisa ser feita. E posso estar arvorando participação maior do que a real, mas ao menos esse texto solto no vento pretende enfiar o dedo nas costelas de algumas pessoas. Gente que pode se incomodar e falar “Peralá, também não é assim, Inimigo”, gente que acha que é uma “puta falta de sacanagem” um festival tomar um rodo desses e tudo ficar numa boa. Se tem gente assim eu não estou sozinho e o grito solto aqui não fica mudo.

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Lembrem-se, o silêncio é cúmplice!! Hoje foi no Casarão em Porto Velho com a prefeitura. Amanhã pode ser em Brasília com alguma lei, depois pode ser em Cuiabá com algum empresário, outra vez será em São Paulo com algum dono de casa noturna. Aqueles que permanecerem calados correm o risco severo de ser os próximos. O silêncio é cúmplice!! Ele concorda, ele aceita, ele acata.

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Você está no twitter? Use a hashtag #festivalcasarao para fazer algum barulho. Comenta aqui no site alguma coisa. Muda seu status no Facebook falando disso. Faz algum barulho, grita, porque o silêncio é canalha e é cúmplice! Solta a voz e mostra que isso não está certo. Por menor que seja nosso movimento ainda assim pode ser maior do que o que historicamente aconteceu em outros momentos, quando não fizemos nada. Quando tiraram nossos espaços, quando minaram nossos festivais, quando nos expulsaram de nossas mesas, quando riram da nossa cara. Dessa vez não podemos terceirizar nosso fracasso e achar que a culpa é dos outros, a culpa é nossa.

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O silêncio é cúmplice! E você, o que você é??

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Há braços!

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Eduardo Mesquita, O Inimigo do rei

eduardoinimigo@gmail.com

twitter – @eduardoinimigo

 

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Sobre Nina Puglia
Produtora da banda Ape X And The Neanderthal Death Squad, cantora, geógrafa pesquisadora da área cultural e integrante do Coletivo Esquina

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