A arte da ferraria do rock n’ roll – resenha do festival Martelada por Pedro Branco

Se algum dia alguém escrever sobre a minha vida, quero que digam, em algum ponto, que tudo o que foi bonito também doeu.

 

Ainda não entendo a forma como damos sentido às coisas, mas para cada conjunto de eventos, gostamos de pensar em ciclos, que se abrem, que se fecham. Ciclos de anos, dias, horas. Assim, buscamos dar sentido aos acontecimentos. Estes dois dias passados se desdobraram diante dos meus olhos, pernas, boca e órgãos vitais, e formaram um ciclo, que começou e acabou. E não tenho certeza se é da natureza humana procurar nas coisas um sentido maior, mas deve ser o que eu estou fazendo.

Eu cheguei naquela casa, que tem abrigado nossos sonhos feitos matéria há algum tempo, depois de ser descolado de um universo de 90 mil pessoas. Meu coração já batia mais rápido, e eu sabia que as próximas horas seriam muito boas. À medida que o tempo foi passando, as pessoas lá chegavam, sem parar, vindas de outros lugares, carregando seus sonhos feitos matéria.

E começou.

Era rock n’ roll de salto alto perto do palco. O primeiro dia explodiu com cada banda que subia. Eles deitavam sobre nós suas vozes, a vibração de suas cordas e pequenas lascas de suas baquetas. E houve o ponto em que eu me vi no topo da montanha, olhando para baixo, como que voando, observando de longe o monumento que edificávamos à medida em que o tempo passava. A galera do Gallo Azhuu foi meu ponto de ebulição, o momento em que, no meio da jornada daquela noite, que já tinha me presenteado com as grandíssimas Johnny Flirt e Vitrine, eu derreti completamente, sendo desmaterializado, me tornando devaneio puro. Com Catorze, deslizei mais para perto do final, naquelas músicas já conhecidas (coisa engraçada essa de conhecer as músicas de alguém sem saber precisar pontos, sem ter uma noção certa de quando aquilo começou). E embora não tenha conseguido o final que esperava com Johnny Suxxx & the Fucking Boys, aquela noite terminou, e, como devia ser, não consegui adormecer facilmente depois do longo caminho até minha casa.

De repente acordo, momentos antes da minha chegada no Cult 22. A chegada ao lugar é a hora em que algo acontece comigo, que borra minha visão. Um acordar kafkaesco. Um profundo estranhamento, um passeio pela fina borda entre realidade e meus conflitos. As pessoas são de plástico, esperando ganhar vida lá dentro, à medida que eu as olho. Os drinks e a cerveja nunca são fortes o suficiente, e parece que eu tenho que esperar ganhar de volta algo que dê valor à realidade. Senão eu estaria aprisionado pra sempre, eu acho.

E a segunda noite estava começando, e, simultaneamente, estava caminhando em direção ao seu final.

E a grande felicidade de se surpreender com uma banda, daquelas que você ouve em casa e diz “boa”, mas quando ganha corpo no palco você se pergunta “o quê?” ou qualquer arranjo igualmente débil de palavras que, colocadas juntas, te fazem parecer um idiota porque você DEFINITIVAMENTE não estava preparado para aquilo. Triturados pelo Coração foi um chute direto na porta, e fizeram valer os minutos que se esvaíam daquele nosso sonho.

Ultravespa não me deixou tão feliz quanto eu esperava, porque gostei instantaneamente do som deles quando ouvi pela primeira vez, mas a porrada não foi tão forte ali, naquele lugar, naquela hora. A Cassino Supernova apresentou seu espetáculo, e foi exatamente naquele momento que eu percebi os rostos dessa nova música, dessa nova onda que me engole de uma vez, passados quase um ano do momento que eu escolhi (?) tomar esse caminho de novas ruas. Rostos no escuro, as luzes pulsando no plano de fundo, dando brilho às gotas de suor que se acumulavam nas suas testas, nucas, e até no meu corpo, ao qual julgo ter dado pouca atenção durante todo aquele tempo.

E os amigos da Lady Lanne, que uma vez me abrigaram em sua casa, em sua cidade, em sua própria fatia de realidade, agora estavam ali, um reencontro, um breve olá, uma marreta pronta a cair sobre nossas cabeças.

E caiu.

Perguntei as horas. Estava perto. Aquilo ia acabar, e já começava a perceber pensamentos do cotidiano contaminando minha cabeça. Mas faltava o último grande show.

Electrodomesticks.

Há uma semana, eu fui num show delas e fui surpreendido por uma enorme quantidade de novas músicas. E ontem, nos últimos minutos do Martelada, elas voltaram. Entre as antigas (que eu não sei cantar, mas sei GRITAR!), ondas de ansiedade quebravam e me levavam de um lado pra outro, entre a tentativa de conhecer e ganhar intimidade com aquelas novas jóias, e a espera, que, agora, parece eterna, pelas novas gravações.

E foi isso aí.

Encerrou-se aquele round dessa luta, dessa guerra, da nossa guerra contra e a favor da nossa época. Estamos em 2011, e o peso de uma data no canto de uma carta é o que nos deixa admitir que o tempo está passando. Somos os gladiadores da nossa época, viajando, pulando de arena em arena, procurando nas feras que nos encaram não só a sobrevivência, mas o espetáculo, um prazer fugaz, como a rápida passagem do sol pelo céu do dia. Mas que vale mais que nada neste mundo.

 

Afinal, estou errado?

Anúncios

Sobre Pedro Branco
Músico. Cineasta. Escritor.

4 Responses to A arte da ferraria do rock n’ roll – resenha do festival Martelada por Pedro Branco

  1. Acabei de ler aqui. Estou muito emocionado e agradeço em nome de todos da Gallo Azhuu. Vamos nos reencontrar em breve, pode ter certeza, brou…

  2. Rodrigo Serpa says:

    Penso que as maiores qualidades de um resenhista sejam duas: desenvolver um estilo próprio de escrita que fuja do trivial e conseguir passar verdade – sentimento – através das palavras. As resenhas que tenho lido aqui unem na medida certa essas características.
    Tive a oportunidade de falar isso pessoalmente pro Pedro Branco domingo no Cult22. Mas gostaria de deixar registrado aqui também.

    Parabéns cara. Continue com o bom trabalho!

    • Pedro Branco says:

      Às vezes, as palavras traem a verdade.

      E é por isso, justamente, que eu prefiro ficar calado agora. Nao quero correr o risco de ser trivial, se posso simplesmente agradecer.

      Muito obrigado!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: