Cores

Já foram alguns rascunhos desde a primeira tentativa, então, pra não me cobrar demais, vou escrever como se fosse só mais um rascunho.

Há alguns meses, eu ouvi o som das Electrodomesticks. Eu já tinha um blog, então, imediatamente, me deu vontade de escrever sobre. Então eu comecei a escrever, e, à medida que as palavras iam se juntando na tela, eu ia apagando. Mais de 30 plays depois no Myspace, e de repente, me batia uma vontade de desistir. Não parecia haver palavras certas, ou então elas nao pareciam gostar de mim naquele momento.

Um adendo: Charles Bukowski disse uma vez que ninguém é ou se torna um escritor; você só PENSA que é um. E, como cada pessoa tem um processo diferente, o que me mantém nos trilhos das palavras é o fato de que eu encontro dificuldade com elas às vezes. Se as palavras fossem fáceis, se a nossa luta não fosse ferrenha, não vejo como eu conseguiria tirar delas aquilo que procuro, que é seu sangue e o meu, suas marcas em meu corpo, seus dentes cravados em minhas costas, enquanto eu, deitado, olho para o alto e digo: “lá chegamos, meu amor”.

E o objetivo não é tanto o de alcançar um ponto final. Esse é o problema do nosso idioma: nossos pontos finais deviam dar lugar a vírgulas, todas as letras deviam ser minúsculas. Devíamos começar nossas frases com dois-pontos.

:enquanto escrevo, ouço mais algumas vezes as músicas delas, que parecem poucas pra quem evita o replay, mas o caso é de continuar, e adicionar, a cada vez, mais 10 ou 15 plays (if you dream too much), porque é viciante, na forma mais abusiva da palavra, e faz querer procurar nos escritores palavras capazes de arranhar a superfície quase material do som, o ar, tão improvável quanto as leis da física, o impossível tornado real, a sensação de estar no caminho certo, de ter pego a curva certa quilômetros atrás,

:mais dois-pontos, let’s do it, abrir espaço em nossos bolsos para essas 4 jóias telepáticas (Ginsberg) que o garimpo fácil da internet nos permite encontrar, e é tão fácil encontrar quanto conhecer, e conhecer significa dar chance ao acaso para enlouquecer de uma forma que, para cada um, é irresistível (Vonnegut),

:sim, eu permito, permito, permito ser invadido e colonizado desse jeito, e permito também o troco, a incerteza de não saber apontar qual jóia eu ofereceria a um estranho, a condição anti-anatômica de não ter dedos para decidir “esta” ou “esta”, porque um dia a resposta foi fácil (Tonight), mas agora deixou de ser, e isso é fantástico, porque já não posso transformar um caminho em uma palavra, nao existe solução fácil, números, notas, classificação final,

:me perdoem, mas quem quiser isso, vai ter que flertar com o desconhecido, e abrir espaço, deixar-se pintar com as cores delas, como eu deixei que me pintassem, e o mais importante, minhas palavras, essas que eu ofereço, meu pouco e meu tudo, minha verdade,

Garotas, obrigado pelas cores. Funcionaram melhor em mim que nas palavras. Algum dia eu vou escrever com som, como vocês fazem, porque pro meu objetivo, this is not working out.

Então vão lá e escutem. É melhor do que ficar lendo isto.

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Sobre Pedro Branco
Músico. Cineasta. Escritor.

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