Roger Waters, 29 de março de 2012.

De 1979 pra cá, o gigantesco muro construído por Roger Waters jamais saiu de foco. Na época em que escreveu The Wall, o baixista passava por uma época conturbada e cria um personagem baseado em si mesmo, Pink. O trauma com a morte do pai, a convivência mãe superprotetora, opressão na escola, problemas com a esposa e o vazio existencial causado pela fama. Tudo isso causa um isolamento da sociedade, metaforizado através um muro.

O próprio Roger Waters se dá conta de que esse muro não se trata apenas dele. Existiam implicações mais amplas para aquelas músicas. Foi por conta desse amplo significado, que Roger Waters dedicou alguns dos shows dessa turnê ao brasileiro Jean Charles de Menezes, morto pela polícia inglesa por ser confundido com um terrorista.

"O medo constrói paredes", mensagem projetada no gigante muro construído durante o show, em "Another Brick In The Wall, Part 2"

As músicas foram tocadas por uma banda de doze músicos – entre eles o tecladista Harry Waters, seu filho – que reproduziam com fidelidade o consagrado álbum The Wall, na ordem exata das músicas e com direito a um intervalo de mais ou menos 20 minutos entre um disco e outro.

O show já começa com fogos de artifício. Na abertura de In The Flesh, surge um avião que vai de encontro ao muro que ainda está para ser construído. O som surround de avião atravessando o Engenhão dá um enorme arrepio e uma sensação de que seus olhos não querem acreditar em tantas coisas espetaculares acontecendo de uma vez.

Era muita informação. Embora tudo fosse projetado no muro, mal podia-se perceber o quão rápido ele foi sendo construído. Quando vi, só havia uma fresta de luz saindo de um buraco sem tijolo. As projeções chamavam atenção aos símbolos que a humanidade carrega consigo. Tanto de caráter religioso, como de consumismo, ou, é claro de guerra.

Os grandes momentos épicos desse show foram em Another Brick On The Wall 2, no qual crianças da Escola de Música da Rocinha cantam um dos refrões mais famosos da história do rock. Em Mother, Roger Waters de 2012 contracena no palco com o Roger Waters da década de 80. E obviamente, o momento em que o muro vai abaixo em The Trial.

Mas, particularmente, o momento no qual eu delirei: Comfortably Numb. Entre as apresentações e animações projetadas, era aparentemente uma das mais simples. Roger Waters anda pra lá e pra cá, de ponta a ponta do palco, brincando com sua sombra. De repente, no segundo solo da música, ele dá um bate no muro. Essa batida faz o muro, nesse momento completamente branco, abre uma pequena fresta a partir de sua mão e se dissolve em cores e mais palas psicodélicas.

Enfim, cada música era um espetáculo. Na forma de bonecos gigantes, ou corais, ou animações. Ou simplesmente a música.

Saiba como foi o Grito Rock 2012, por Antonio Luna

GRITO NA CHUVA

Antônio de Luna Nogueira

Não há dúvida, nada podia tornar o domingo mais brasiliense: aquele silêncio, o tempo
perigosamente nublado, o deserto preguiçoso e, finalmente, DOMINGO. Sim, o próprio: ele se
inclui em sua própria lista e descrição! Afinal, um domingo é também um Domingo, um conceito
(ou vazio de conceitos) de dia e de ânimo. É quando lembramos que as folhas das árvores fazem
barulho quando sacudidas, que pássaros podem ou não voar em grupo, e que o padeiro daquela
nunca abre no domingo… E só por isso nos lembramos dele. Domingo não se confunde nunca.
Segunda-feira que o garanta.

Enfim, não é uma derrota, é um empate. Horas após horas, horas que não passam, horas que se
entulham e se empilham umas sobre as outras, umas sobre as outras… E, de repente, o céu que
desaba e desagua e tudo desanda. Es todo un desmadre, cabrón. “Isso é um aviso” penso entre os
entulhos das horas encharcadas “e talvez uma derrota”. Agora sim, aparece o temido Domingo
de Brasília em todo seu sinistro esplendor, tão fatal quanto a inscrição no portal do Inferno de
Dante: “Deixai toda esperança, ó vós que entrais!” Olho para um relógio e não percebo o tempo.
Brasília está em coma e a profecia do dominical se vê realizada. A chuva toma tudo sem piedade,
encarcerando os temerosos candangos em suas casas sob o temível jugo de um fantasmagórico
Faustão (ou de miríade de filmes ruins, porque domingo o povo da tevê apela!). “Mas pode ser
o momento para um bom livro”, dirão alguns. Pode sim… Mas hoje não. Hoje o domingo ataca a
alma com todas suas armas e o som da chuva ocupa tudo: abro minha boca para falar e não ouço
minha voz. Apenas chuva, apenas chuva… Não. É preciso falar. Falar mais alto que tudo. Mais alto
que a chuva. É preciso gritar.

Junto aos camaradas Marcos Rangel e Paulo Machado, envoltos nas nuvens de uma canção de
tamburins, chegamos flutuando ao Arena, palco do Grito Rock Brasilia 2012, produzido pelo
Coletivo Esquina. Eu participei com minha banda – e inclusive resenhei um dia do evento – no
ano anterior. Devo dizer que sai muito satisfeito. Contudo, desta vez temi que as adversidades
climáticas – que, em Brasília, convenhamos, contribuem em grande parte no desfecho bom ou
ruim de nossas práticas sociais, eventos e tralha e tal… – pudessem comprometer o festival. Os
candangos conhecem sua própria reputação no que diz respeito a eventos em dias de chuva…

O Arena ainda está bem vazio e o show ainda não começou (alívio, porque cheguei atrasado!)
Mas era algo de se esperar. Vou andando, cumprimento aqui e ali e, finalmente, parto em busca
de cerveja. Logo de cara, me espanto com o preço. A cerva não está das mais acessíveis. Mas
suponho que isso é o preço tabelado dos eventos do Arena. Achei antiético. No entanto, minha
falta de caráter falou mais alto do que chuva e preço e acabei comprando uma da mesma maneira.

E assim foi que ouvi, sentado e dando goles medicinais de bira enquanto conversava sobre arte e
coisas da vida, o anúncio da primeira banda.

Arrumei um canto ao lado de um daqueles jogadores de totó vermelhos gigantes que servem de
coluna e apoio cervejeiro (vem cá, fã de futebol inventa cada uma, hein?) e abri os ouvidos …

Johnny Flirt

Ah, enfim! Ouço música, ao invés de chuva! E melhor, rock! Rock do bom. Johnny Flirt tem um
evidente apreço pela pegada britânica do velho agito e balanço (uma livre tradução de rock…) – e
algo de uma banda japonesa chamada The Pillows também.

Vertiginoso e intenso, com ataques precisos, alto, distorcido e barulhento. Por outro lado, é um
som claro – com direito até a fraseados pop algo britânicos e melosos de vez em quando! – onde
cada elemento aparece no lugar certo: é possível perceber a contribuição de cada músico nos
riffs interligados e em diálogo, nos fraseados criativos e melodias atraentes, nas transições bem
articuladas entre partes e músicas, nas linhas de baixo e frases de bateria incisivos… Enfim, na tela
sonora como um todo. Tudo se suporta mutuamente e sem esforço aparente. E, ainda assim, o
som sai cheio de pressão e de urgência roqueira de primeira.

O resultado final é uma química sonora coesa, bem ensaiada e executada. E esta coesão vai além
da música: a união entre os músicos é vísivel. Um excelente indicador de foco é a reação de uma
banda diante de adversidades: se peidar no erro, caga no show. No caso do show do Johnny
Flirt uma guitarra parou de funcionar e uma corda de baixo partiu. O show continuou com toda
naturalidade, energia e showmanship. Isso é uma banda tranqüila. E isso torna o show melhor.

Distintos Filhos

Ainda indignado com o preço da cerveja, resolvi comprar uma outra para esquecer. Fui ver
qual seria a próxima banda. E quando soube, estranhei. Conheço o som dos Distintos Filhos
e, francamente, acho que não combina muito com a sonoridade geral da noite, onde há uma
evidente prevalência de rock e, particularmente, de um rock com orientações mais garage,
rockabilly, brit etc.

Mas enfim! O grupo é bom. Extremamente bem ensaiado e competente na execução de suas
canções, trabalhando bem dinâmicas e usando de maneira consagrada uma grande variedade
de recursos sonoros. No todo, a sonoridade traz consigo um bocado daquele repertório sônico
do rock e pop rock brasileiro dos finais dos anos oitenta e anos noventa, além de bandas mais
recentes, como o próprio Lafusa (aliás, em momentos, os Distintos Filhos trazem elementos muito
semelhantes em suas canções, sobretudo no quesito timbragem).

É um som acessível a muita gente, com o qual muitos podem se identificar. Eu, particularmente,
não sou um grande entusiasta, mas reconheço no trabalho deles grande competência e seriedade.
O som é impecavelmente executado do começo ao fim de maneira muito profissional (aliás,
parabéns ao coletivo pela sonorização que, em muito, ajuda os músicos a darem o melhor de si).

Triturados pelo Coração

Agora esta é uma banda que há tempo queria resenhar. Os caras agitam com um power trio
de 50’s rock com surf, tudo muito bem executado e estudado. Dá para ver a admiração e a
homenagem que a banda presta, com originalidade, aos velhos mestres do então infante rock.
A começar pelo nome – onde nota-se de imediato uma bem humorada referência a nomes
icônicos do rock, como The Heartbreakers ou até o fictício conjunto do Sargento Pimenta… – até
o trabalho musical e de palco.

É possível ver neles referências à nossa jovem guarda e aos primeiros anos do rock americano,
como o som dos Coasters e e do Gene Vincent. Bem aquela época em que o rock bebia o goró de
três acordes do blues, jogava em cima um bourbon com fraseados country e dava liga em tudo
com cerveja e guitarras. Um época mais inocente… Mas já tão inconseqüente.

Frases consagradas, timbres clássícos, solos e fraseados rockabilly com um sabor autêntico. E
nisso tudo, uma vontade de agitar da mesma maneira que os solos, riffs marcantes e olhos tortos
do “Bill Haley and his Comets” agitavam o povo naqueles primeiros anos de rock.

Água de Cachorro

A banda de Minas Gerais tem um som declaradamente acústico, com uma sonoridade bluegrass
ou de hillbilly rock. Uma pegada que pode ser comparada a um Johnny Cash unplugged – mas sem
aquela guitarra venenosa – com influências brasileiras, ou mais especificamente, mineiras. Uma
canção em particular me lembrou o trabalho dos Beat Farmers na canção “Gettin’Drunk.”

O trabalho do violão de aço é atraente, emulando algumas vezes o som de um bandolim. O
acompanhamento do baixo acústico deixa o trabalho mais interessante e original. Já, as letras tem
temáticas nacionais e, junto aos outros elementos citados, acabam gerando uma paisagem sonora
autêntica.

Uma coisa no entanto, tomou minha atenção: o ritmo. As canções tem uma estrutura rítmica
muito semelhante entre elas. E quando pensei nisso, surgiu um pardigma de dois gumes: por um
lado, a banda fez uma escolha de gênero original. Ou melhor, suas influências musicais os levaram
a produzir um som que é relativamente original no Brasil, pois apesar de termos muitas bandas
com influências country rock e blues, poucas exploram o nicho do bluegrass e do hillbilly.

Por outro lado, é também aí, justamente, reside meu incômodo: esse é um nicho estreito
com uma paleta sonora muito específica. E pela semelhança entre as músicas, visível no ritmo
repetitivo, isso parece denotar uma certa “zona de conforto” criativo para a banda. É algo a se
considerar.

Cassino Supernova

Um feedback anuncia com clareza a mensagem logo no começo: rock. Parece repetitivo, afinal
este é o Grito ROCK, pelo amor de deus! Mas mesmo assim, eu conheço os caras, eles tocam bem
e o bagulho é true – resumindo logo a história toda num conceito bruto e monolítico. O show
irrompe e é possível ver que, cada vez mais, eles se tornam notórios saberes – já que não conheço
doutores em rock… – de seu gênero: rock à rolling stones, com algo de um rockabilly, um finória
de raulzito aqui e ali, tudo misturado com aqueles ingredientes basais do rock, como o bom humor
na letra e na melodia – uma melodia é uma frase, né não?

Timbres bem escolhidos, bem estudados, fraseados de bom gosto. Um som que dialóga com a
platéia tanto em energia quanto musicalidade. Entre aprimeira vez que os resenhei e esta atual
resenha, percebo uma audível e visível diferença, uma maior maturidade sônica que, ainda
assim, não perde sua personalidade diante de algum pretenso aprimoramento sonoro, de uma
suposta “seriedade musical” (aliás, já mencionei algo semelhante sobre eles numa resenha
anterior). Aqui não, tanto em visual – o excêntrico cabelo a la cuia continua firme e forte! – quanto
em sonoridade é possível perceber uma banda concentrada, focada, tocando um rock enérgico,
bem executado e, mais que nada, à sua maneira.

Um rock à Supernova: explosivo.

Lamentavelmente, tive de ir embora do show antes da hora e não pude o show da ETNO… Fico
com essa dívida sonora! No entanto, no fim das contas, ainda que meio vazio por conta da aguda
aversão – olha a ironia! – que a chuva provoca ao povo candango, o festival contou com bandas
muito boas, concentradas, enérgicas, oferecendo excelentes espetáculos e empenhadas em fazer
aquele rock gritar sempre mais alto.

Fotos: Os Triturados pelo Coração, no Grito Rock Brasília 2012, por Isabelle Araujo

Agenda: Cassino Supernova Festa Show

Festa Show com Cassino Supernova

Dia 29 de março de 2012, quinta-feira, às 21hs (bar aberto a partir
das 19 horas).
Festa dedicada ao Indie Rock com a banda Cassino Supernova. Abrindo o
evento terá a banda Bife a Bolonhesa, de Taguatinga e, durante os
intervalos e encerrando o evento, os djs toticore, Lamim (Enema Noise
DJ Set) e Share This Breath.
Onde: Cult 22 Rock Bar, Centro de Atividades 7, Lago Norte
Ingressos: 5 reais até as 22h, 10 reais até as 24h e 15 reais após.
Informações: 8244-4985.

Aprenda produção cultural com o Alê Barreto

É com satisfação que iniciamos ontem a campanha para trazer os cursos “Aprenda a organizar um show” e “Aprenda a produzir uma banda”, ministrados pelo produtor cultural independente Alê Barreto.

Pra quem não sabe, o Alê desenvolveu, ao longo de sua carreira de produtor, uma metodologia de produção cultural baseada no compartilhamento de informações através da internet e de redes de contatos. Tudo isso disponibilizado em seu blog: www.produtorindependente.blogspot.com.br. Com o método, qualquer pessoa que tenha disciplina e organização pode produzir eventos culturais de qualidade. E, em parceria com o Esquina, o Alê quer retomar suas ações aqui no DF.

Se você tem interesse em aprimorar seus conhecimentos de produção cultural, matricule-se no curso e ajude a garantir a vinda dele para Brasília. Todas as informações sobre a campanha estão neste post do blog dele: http://produtorindependente.blogspot.com.br/2012/03/comecou-campanha-para-os-cursos-do.html

Fotos: Distintos Filhos no Grito Rock Brasília 2012, por Isabelle Araujo

Fotos: Água de Cachorro no Grito Rock Brasília 2012, por Isabelle Araujo.

Fotos: Cassino Supernova no Grito Rock Brasília 2012, por Isabelle Araujo

Fotos: Etno no Grito Rock Brasília 2012

Fotos: Johnny Flirt no Grito Rock Brasília 2012, por Isabelle Araujo

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