Bob Dylan. Afinal, foi bom ou ruim?

Eram 21:35 e eu ainda estava na fila, quase na entrada do Ginásio, quando ouvi os primeiros acordes. Para um show marcado para as 21:30, o atraso era ínfimo. Perdi a primeira música inteira no processo de passar pela entrada e me acomodar na arquibancada.


Já sentada, começo a prestar mais atenção no show. A famosa voz rouca do rock e do folk, agora emitida por um corpo de 70 anos, está obviamente mais rouca e mais grave. A acústica do local, que em nada contribui para um bom resultado sonoro, fez com que os técnicos demorassem umas 5 músicas para ajustá-lo a ponto de ficar confortável. A banda que acompanha Dylan tem duas guitarras, um tecladista, baixista e baterista (aliás, destaque total para a cozinha de extrema competência e musicalidade). Para os fãs inveterados, algo de muito estranho; para os que foram sem saber muito do que se tratava, talvez nem tenha feito muita diferença; mas para os que de alguma forma são músicos e conhecem minimamente a trajetória de Dylan, algo estranho porém interessante.


O fato de ter uma banda “grande”, a priori descaracteriza um pouco o som de Dylan. Aqueles que esperavam ouvir os grandes sucessos ao som de gaita e violão e/ou guitarra, talvez tenham se decepcionado. Bob Dylan tocou todas as músicas com arranjos diferentes dos originais. E mal pegou na gaita ou guitarra, mas nos momentos que o fez, o público respondia positivamente. De fato era isso que queriam ver. Em “like a rolling stone” – obviamente a música mais aguardada e que despertou maior resposta do público -, a indefectível gaita só apareceu no final, mas mesmo assim com melodia modificada.


Por conta dos arranjos e andamentos diferentes, em alguns momentos demorava-se um pouco para entender qual era a música. E a evidente falta de interação com o público – ele não pronunciou uma palavra sequer a noite toda -, para muitos deve ter sido chato.


Mas acho que mesmo diante deste panorama, algo precisa ser pontuado. Por mais que seja um pouco frustrante ir ao show e não ouvir os sucessos tal qual foram gravados, acho legal esse lance de rearranjar o repertório. Porque eu acredito que a música é uma obra em aberto. Ela deve ser dinâmica, acompanhar a ordem do dia mesmo. E isso é que faz um verdadeiro espetáculo: a espontaneidade da performance e as novas nuances criadas em cada apresentação. Imagina que saco que deve ser ficar 40, 50 anos tocando as músicas rigorosamente com os mesmos acordes, a mesma levada e os mesmo solos? Acho que nem os metidos a virtuose do metal progressivo aguentam! Acho essa é a verdadeira virtude e o verdadeiro encanto da música: ela é dinâmica; pode ser transformada e reformada a qualquer momento.


Assim sendo, pra quem esteve disposto a olhar o show de ontem com esse prisma, Bob Dylan realmente deu um verdadeiro espetáculo.

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Sobre Nina Puglia
Produtora da banda Ape X And The Neanderthal Death Squad, cantora, geógrafa pesquisadora da área cultural e integrante do Coletivo Esquina

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