Metal Open Air: o sonho que virou pesadelo

Era madrugada de sábado 21/04 para domingo 22/04 quando entrei no facebook e vi os primeiros comentários sobre o Metal Open Air. Eu achei estranho o que li e resolvi pesquisar na internet. As informações que encontrei pareciam inacreditáveis para um festival tão aguardado, mas ao mesmo tempo tão controverso. Hoje, seis dias, muitas reportagens e depoimentos lidos depois, como aprendiz de produtora que sou, me sinto quase que obrigada a expressar minha opinião sobre o ocorrido, com a finalidade apenas de tentar gerar um mínimo de reflexão naqueles que eventualmente se interessarem em ler. O que aconteceu com o M.O.A. foi muito sério e creio que é um ótimo exemplo para ponderarmos sobre produção cultural, postura do público, e outros aspectos ligados ao ocorrido.

Produção é coisa séria.
Mexe com o dinheiro e com os sonhos das pessoas. Parece piegas, mas é verdade. Qual headbanger no mundo não sonharia ver Exodus, Venom, Anthrax e Megadeth tocando em um mesmo festival? Isso atiça os sentimentos das pessoas. E elas pagam caro pra realizar esse desejo.

Daí eu pergunto: com base em que os produtores do M.O.A. acharam que poderiam pegar o dinheiro das pessoas pra fazer um festival e, mesmo sem as condiçõees básicas, levar essa produção pra frente? Será que eles acharam que ninguém ia perceber???
Aí vem à cabeça aquela célebre frase da sabedoria popular que diz que “o que começa errado acaba errado”.

Começou errado porque, na minha opinião, não tem cabimento divulgar o seu evento usando o nome de outro. O M.O.A. começou a ser divulgado como uma edição brasileira – e em São Luís do Maranhão – do Wacken Open Air (W:O:A – maior festival de Metal do mundo, que é realizado anualmente há 20 anos na Alemanha). E isso é tão sério que, dias depois, os representantes do Wacken no Brasil soltam uma nota à imprensa dizendo que a marca estava sendo usada indevidamente por alguém para promover alguma coisa que não era Wacken. E só aí a farsa foi desfeita: o tal “Wacken brasileiro” na verdade se chama Metal Open Air, mas, de fato aconteceria em São Luís e de fato prometia um lineup digno do festival europeu.

Aí vem a segunda pergunta: com o que esses produtores estavam na cabeça que acharam que iam fazer um festival sem pagar o sinal do cachê? E pior: sem emitir as passagens das bandas? Eles achavam o que? Que sem passagem as bandas viriam mesmo assim por amor ao metal? Por mais que as bandas em questão amem e respeitem seu público, não iriam – e nem devem mesmo – pagar pra tocar!

Outra coisa: acordo é acordo. Contrato é contrato. Tem que ser cumprido. Ponto.
Mas certas coisas podem – e devem – ser negociadas. Se o músico pede um amplificador impossível de ser providenciado, negocie. Diga “fulano, o amplificador X não rola. Pode ser o Y?”. Se o cara bater o pé, agradeça, e dispense a banda. O que não dá é entrar nessas de colocar qualquer coisa lá no dia achando que ou o cara não vai perceber ou que não vai reclamar porque “já to aqui mesmo, fazer o que…” e nem, muito menos, entrar nessa de “ah, equipamento é tudo igual”. NÃO É. Simples assim. E se fosse, ou se pra aquele músico tanto faz mesmo, ele não pediria nada específico. É que nem um médico de hospital particular  chegar pra fazer uma cirurgia e não ter o equipamento necessário. O cara vai fazer o que? Abrir a barriga de alguém com faca de cozinha porque “foi o que deu pra arranjar”?

E, pra mim, uma das piores coisas – e de fato uma das mais noticiadas: o “camping”. Acho que nem em filme de terror se monta um camping em um estábulo para cavalos. Isso é INACREDITÁVEL! INADMISSÍVEL! Uma total falta de respeito. Gente, uma coisa que é importante ficar clara e que pelo jeito os produtores do M.O.A. não sabem é que show e festival só existem porque existe o público. Se o público, que é a razão daquilo tudo existir não é respeitado, aquilo tudo não faz o menor sentido! Simples assim. Como você quer fidelizar as pessoas para o seu evento que pretende ser anual se você as trata assim? Não tem pessoa compreensiva no mundo que ature um negócio desses.

E mais: com pau comendo na hora do festival – palco sendo desmontado por falta de pagamento de fornecedor, bandas cancelando participação também por não pagamento, arrastão de bandidos furtando o público, pessoas dormindo em meio a esterco de cavalo – os “produtores” ainda acham que não devem satisfação aos seus clientes. Ou seja: você paga por uma coisa, chega ao local e vê outra e fica sem informação nenhuma do que está contecendo. Isso é lesar o cliente.

Resumindo: uma catástrofe atrás da outra, que poderiam ter sido evitadas se os produtores do festival tivessem feito um mínimo de planejamento e tivessem um mínimo de respeito pelas bandas e pelo público. Público este que queria ir de coração aberto, sem essas babaquices de pensar “o Nordeste não tem estrutura pra um festival desses”. Queria ir por apoiar a iniciativa de fazer um festival desse porte voltato exclusivamente para o metal, onde quer que fosse.
Aliás, meus parabéns para o público, que, mesmo abandonado, não causou maiores problemas e ainda teve paciência de ver e curtir os poucos shows que rolaram. Isso é uma prova cabal de que o público headbager é fiel e que precisa ser mais respeitado e valorizado. Só espero que os que foram exijam seus direitos de consumidor lesado. Se isso não for feito, vamos sempre estar à mercê de gente incopetente e gananciosa.

E este é o ponto que eu queria chegar com o texto. A lição que preicsa ficar sobre o M.O.A. é que, como amante da música, você não deixa de ser um cliente. Quando você compra um ingresso, principalmente pra um evento deste porte, nele vem embutidos uma série de serviços que precisam ser prestados. Por exemplo: se está sendo divulgado que vai ter local de alimentção dentro da área do festival, PRECISA TER; da mesma maneira, se está sendo divulgado que o show X vai começar na hora Y, isso PRECISA ACONTECER. Você pagou por aquilo! Imprevistos acontecem. Quem trabalha com produção sabe: pode chover, um fornecedor pode atrasar pra chegar, o voo da banda pode ser cancelado, enfim, várias coisas que atravancam tudo, mas que vai da habilidade que o produtor tem de resolver problemas e fazer tudo continuar rolando na mais perfeita ordem. Mas se a coisa realmente for prejudicar mesmo o andamento do festival, as pessoas TEM QUE SER AVISADAS. Por outro lado, o público também tem de ser coerente e ter bom senso: uma coisa é má fé e incopetência dos organizadores, que venderam uma coisa que não existe. Outra coisa é chover no dia e atrasar a montagem e/ou danificar estruturas, por exemplo. Tem coisas que fogem mesmo do controle da produção.

Portanto, a reflexão que deve ficar pra quem foi e pra quem não foi ao festival é sempre investigar quem ou que empresa está fazendo a produção. Tem muita gente picareta por aí, mas também tem muita gente bem intencionada e competente, que rala muito pra fazer eventos de qualidade, mas que, muitas vezes, o público não dá o devido valor a elas. E em Brasília temos vários exemplos das duas coisas. Vamos ter mais bom senso. Inclusive (ou talvez principalmente) nos eventos com entrada gratuita. É dinheiro público que está sendo usado lá. Ele tem que ser muito bem aplicado, não acham?

Com bom senso todo mundo ganha: os bons produtores, os fornecedores e equipes contratadas, as bandas e, principalmente, VOCÊ.

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Sobre Nina Puglia
Produtora da banda Ape X And The Neanderthal Death Squad, cantora, geógrafa pesquisadora da área cultural e integrante do Coletivo Esquina

One Response to Metal Open Air: o sonho que virou pesadelo

  1. Ana Claudia says:

    Falou tudo! trago toda essa lição para os eventos nos quais eu como socia promovo! isso é u falta total de respeito com que FAZ o evento que é o publico!
    Ta de parabêns!
    Bom dia.

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