Metal Open Air: o sonho que virou pesadelo

Era madrugada de sábado 21/04 para domingo 22/04 quando entrei no facebook e vi os primeiros comentários sobre o Metal Open Air. Eu achei estranho o que li e resolvi pesquisar na internet. As informações que encontrei pareciam inacreditáveis para um festival tão aguardado, mas ao mesmo tempo tão controverso. Hoje, seis dias, muitas reportagens e depoimentos lidos depois, como aprendiz de produtora que sou, me sinto quase que obrigada a expressar minha opinião sobre o ocorrido, com a finalidade apenas de tentar gerar um mínimo de reflexão naqueles que eventualmente se interessarem em ler. O que aconteceu com o M.O.A. foi muito sério e creio que é um ótimo exemplo para ponderarmos sobre produção cultural, postura do público, e outros aspectos ligados ao ocorrido.

Produção é coisa séria.
Mexe com o dinheiro e com os sonhos das pessoas. Parece piegas, mas é verdade. Qual headbanger no mundo não sonharia ver Exodus, Venom, Anthrax e Megadeth tocando em um mesmo festival? Isso atiça os sentimentos das pessoas. E elas pagam caro pra realizar esse desejo.

Daí eu pergunto: com base em que os produtores do M.O.A. acharam que poderiam pegar o dinheiro das pessoas pra fazer um festival e, mesmo sem as condiçõees básicas, levar essa produção pra frente? Será que eles acharam que ninguém ia perceber???
Aí vem à cabeça aquela célebre frase da sabedoria popular que diz que “o que começa errado acaba errado”.

Começou errado porque, na minha opinião, não tem cabimento divulgar o seu evento usando o nome de outro. O M.O.A. começou a ser divulgado como uma edição brasileira – e em São Luís do Maranhão – do Wacken Open Air (W:O:A – maior festival de Metal do mundo, que é realizado anualmente há 20 anos na Alemanha). E isso é tão sério que, dias depois, os representantes do Wacken no Brasil soltam uma nota à imprensa dizendo que a marca estava sendo usada indevidamente por alguém para promover alguma coisa que não era Wacken. E só aí a farsa foi desfeita: o tal “Wacken brasileiro” na verdade se chama Metal Open Air, mas, de fato aconteceria em São Luís e de fato prometia um lineup digno do festival europeu.

Aí vem a segunda pergunta: com o que esses produtores estavam na cabeça que acharam que iam fazer um festival sem pagar o sinal do cachê? E pior: sem emitir as passagens das bandas? Eles achavam o que? Que sem passagem as bandas viriam mesmo assim por amor ao metal? Por mais que as bandas em questão amem e respeitem seu público, não iriam – e nem devem mesmo – pagar pra tocar!

Outra coisa: acordo é acordo. Contrato é contrato. Tem que ser cumprido. Ponto.
Mas certas coisas podem – e devem – ser negociadas. Se o músico pede um amplificador impossível de ser providenciado, negocie. Diga “fulano, o amplificador X não rola. Pode ser o Y?”. Se o cara bater o pé, agradeça, e dispense a banda. O que não dá é entrar nessas de colocar qualquer coisa lá no dia achando que ou o cara não vai perceber ou que não vai reclamar porque “já to aqui mesmo, fazer o que…” e nem, muito menos, entrar nessa de “ah, equipamento é tudo igual”. NÃO É. Simples assim. E se fosse, ou se pra aquele músico tanto faz mesmo, ele não pediria nada específico. É que nem um médico de hospital particular  chegar pra fazer uma cirurgia e não ter o equipamento necessário. O cara vai fazer o que? Abrir a barriga de alguém com faca de cozinha porque “foi o que deu pra arranjar”?

E, pra mim, uma das piores coisas – e de fato uma das mais noticiadas: o “camping”. Acho que nem em filme de terror se monta um camping em um estábulo para cavalos. Isso é INACREDITÁVEL! INADMISSÍVEL! Uma total falta de respeito. Gente, uma coisa que é importante ficar clara e que pelo jeito os produtores do M.O.A. não sabem é que show e festival só existem porque existe o público. Se o público, que é a razão daquilo tudo existir não é respeitado, aquilo tudo não faz o menor sentido! Simples assim. Como você quer fidelizar as pessoas para o seu evento que pretende ser anual se você as trata assim? Não tem pessoa compreensiva no mundo que ature um negócio desses.

E mais: com pau comendo na hora do festival – palco sendo desmontado por falta de pagamento de fornecedor, bandas cancelando participação também por não pagamento, arrastão de bandidos furtando o público, pessoas dormindo em meio a esterco de cavalo – os “produtores” ainda acham que não devem satisfação aos seus clientes. Ou seja: você paga por uma coisa, chega ao local e vê outra e fica sem informação nenhuma do que está contecendo. Isso é lesar o cliente.

Resumindo: uma catástrofe atrás da outra, que poderiam ter sido evitadas se os produtores do festival tivessem feito um mínimo de planejamento e tivessem um mínimo de respeito pelas bandas e pelo público. Público este que queria ir de coração aberto, sem essas babaquices de pensar “o Nordeste não tem estrutura pra um festival desses”. Queria ir por apoiar a iniciativa de fazer um festival desse porte voltato exclusivamente para o metal, onde quer que fosse.
Aliás, meus parabéns para o público, que, mesmo abandonado, não causou maiores problemas e ainda teve paciência de ver e curtir os poucos shows que rolaram. Isso é uma prova cabal de que o público headbager é fiel e que precisa ser mais respeitado e valorizado. Só espero que os que foram exijam seus direitos de consumidor lesado. Se isso não for feito, vamos sempre estar à mercê de gente incopetente e gananciosa.

E este é o ponto que eu queria chegar com o texto. A lição que preicsa ficar sobre o M.O.A. é que, como amante da música, você não deixa de ser um cliente. Quando você compra um ingresso, principalmente pra um evento deste porte, nele vem embutidos uma série de serviços que precisam ser prestados. Por exemplo: se está sendo divulgado que vai ter local de alimentção dentro da área do festival, PRECISA TER; da mesma maneira, se está sendo divulgado que o show X vai começar na hora Y, isso PRECISA ACONTECER. Você pagou por aquilo! Imprevistos acontecem. Quem trabalha com produção sabe: pode chover, um fornecedor pode atrasar pra chegar, o voo da banda pode ser cancelado, enfim, várias coisas que atravancam tudo, mas que vai da habilidade que o produtor tem de resolver problemas e fazer tudo continuar rolando na mais perfeita ordem. Mas se a coisa realmente for prejudicar mesmo o andamento do festival, as pessoas TEM QUE SER AVISADAS. Por outro lado, o público também tem de ser coerente e ter bom senso: uma coisa é má fé e incopetência dos organizadores, que venderam uma coisa que não existe. Outra coisa é chover no dia e atrasar a montagem e/ou danificar estruturas, por exemplo. Tem coisas que fogem mesmo do controle da produção.

Portanto, a reflexão que deve ficar pra quem foi e pra quem não foi ao festival é sempre investigar quem ou que empresa está fazendo a produção. Tem muita gente picareta por aí, mas também tem muita gente bem intencionada e competente, que rala muito pra fazer eventos de qualidade, mas que, muitas vezes, o público não dá o devido valor a elas. E em Brasília temos vários exemplos das duas coisas. Vamos ter mais bom senso. Inclusive (ou talvez principalmente) nos eventos com entrada gratuita. É dinheiro público que está sendo usado lá. Ele tem que ser muito bem aplicado, não acham?

Com bom senso todo mundo ganha: os bons produtores, os fornecedores e equipes contratadas, as bandas e, principalmente, VOCÊ.

saiba mais sobre “NITERÓI ROCK UNDERGROUND (1990-2010) de Pedro de Luna

“NITERÓI ROCK UNDERGROUND (1990-2010)”

(224 pgs, independente) R$ 40

Autor: Pedro de Luna


O que chamamos hoje de indie, alternativo, ou seja lá qual nome você quiser dar, começou no Brasil no início dos anos 1990 com o surgimento da tal cena independente. No ano em que a MTV se instalou no Brasil e o presidente Collor abriu o mercado para a entrada do instrumento e do equipamento de som importado, uma movimentação tomou conta de jovens por todo o Brasil, como certo adolescente morador de Niterói.


As bandas começaram a divulgar suas músicas em fitas demo em cassete ou vinil, e os fanzines tinham o papel de mídia especializada. Selos e gravadoras independentes surgiam, assim como os primeiros festivais – o primeiro foi o Juntatribo, em Campinas 1993, seguido pelo Super Demo, BHRIF, Abril Pro Rock e Humaitá Pra Peixe. O skate estava em alta. A troca de informações acontecia a todo favor através de cartas num sistema que se retroalimentava, quase que num mundo paralelo, o tal underground.


E este livro narra a versão do gestor cultural Pedro de Luna durante este início até os dias de hoje. Sem um distanciamento crítico, já que ele também foi parte importante de tudo isso, o jornalista, publicitário e quadrinista não teve a pretensão de contar A História definitiva de uma cena, mas sim Uma História de uma época do ponto de vista de quem vivenciou tudo aquilo da maneira mais presente possível.


Niterói Rock Underground (1990-2010) mostra a transição da música (e por que não da cultura) no país e seus reflexos em Niterói-RJ. A revolução aconteceu no campo sociológico, político, estético, econômico e, claro, tecnológico. Da fita cassete, LP, VHS, fotocópia, fotografia em papel e o fax para o mp3 e o telefone celular, foi um longo caminho. E no meio dele não tinha uma pedra, e sim o fax, a popularização do computador pessoal com impressora, o CD, o DVD e o vídeo laser. E o Pedro.


Vivendo em Niterói desde os nove anos de idade, Luna aprendeu a não só amar, mas também a defender sua nova cidade. Aos 18 anos estagiou na falecida Rádio Fluminense FM e caiu de cabeça na cena independente. Editou fanzine, foi empresário de bandas, produziu (e produz) dezenas de eventos e viajou para praticamente todos os festivais do país, sempre levantando a bandeira niteroiense. “Era como uma missão, eu queria colocar Nikiti no mapa nacional. Escrevia dezenas de cartas por semana, panfletava, ia para os shows sempre divulgando o município e os seus artistas”, explica.


O processo de pesquisa consumiu dois anos. Começou através do seu imenso acervo pessoal de CDs, fitas demo, fotos, cartazes, fanzines e flyers. “Abri cada pasta no fundo do baú e a partir dali fui organizando tudo cronologicamente”, conta. “Depois realizei entrevistas com pessoas essenciais e conferi algumas informações através da internet e trocando e-mails”. Seu livro vem para cobrir uma lacuna na bibliografia do gênero.


UTILIZANDO O CROWDFUNDING

Aprovado pela editora pública Niterói Livros em 2007 e novamente em 2009, nunca foi lançado. Cansado de ser enrolado, Pedro resolveu editar por conta própria utilizando o crowdfunding, fazendo a venda antecipada para os amigos. Em três semanas, vendeu 120 exemplares. “A ideia era lançar o livro com um CD duplo contendo músicas existentes apenas nas fitas demo em k7 das bandas niteroienses como trilha sonora. Seria também uma forma de preservar a memória”.


Vinte anos depois, Pedro diz que é muito mais fácil promover a circulação de qualquer conteúdo, porém continua sendo difícil destacá-lo em meio a tanta informação. “A audiência se tornou a coisa mais valiosa. Por isso a criação de um relacionamento sólido continua sendo importante. Sem internet, usávamos as cartas para fazer amizades com pessoas do país inteiro que nunca vimos ao vivo, e muitas vezes não conheceríamos mesmo pessoalmente”, conta o jornalista, que mantém sua caixa postal desde 1996.


A CENA NITEROIENSE DE HOJE
Em 2004, após uma viagem à Cuiabá, Luna criou o movimento Arariboia Rock para organizar as bandas e suas lutas, como a criação do Dia Municipal do Rock em Niterói, comemorado dia 04 de dezembro. Porém, passados seis anos, a situação atual da cena não é nada boa. “Existem muitas bandas, mas a maioria de qualidade mediana. Vários grupos bons decidiram parar por falta de perspectivas”, lamenta. Para se ter uma ideia, hoje, há apenas dois locais para shows de rock na cidade: a Box 35, antiga Vollupya, criada há mais de 20 anos, e o Espaço Convés, que resiste há 15 primaveras.

“Não há espaços novos, nem qualquer programa público de incentivo, linha de crédito ou modelos de financiamento para a cadeia produtiva da música e da cultura em geral. Precisamos reabrir a Cantareira, o Cine Icaraí e o Teatro Popular e, principalmente, ocupar as praças e pistas de skate – como fizemos em 2008 com o bem sucedido projeto Rock na Pista”, enumera o coordenador do Arariboia Rock, que também reivindica uma rádio e uma TV pública municipal.


“Enquanto a prefeitura não entender que seu papel não é inventar coisas novas e sim fomentar o que já existe e funciona, não sairemos da estagnação cultural”, afirma o gestor cultural, que em dezembro de 2010 recebeu do vereador Waldeck Carneiro uma placa em homenagem pela sua contribuição cultural à Niterói. No dia 13 de julho deste ano, outro vereador, Renatinho, conferiu a Pedro a medalha de escritor José Cândido de Carvalho, em reconhecimento ao livro Niterói Rock Underground (1990-2010) e sua importância para o município de Niterói e à cena roqueira do Brasil.


Fruto de um trabalho que começou em 2007, este livro é uma bíblia para quem quer trabalhar com jornalismo cultural ou se divertir com a realidade de quem vive o rock.


Blog do livro >> www.niteroirockunderground.blogspot.com


Contatos com o autor: Pedro@arariboiarock.com.br ou 21 8626-6690


saiba mais sobre esse lançamento!

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Leia mais sobre a cena independente!

O gestor cultural Pedro de Luna, do Rio de Janeiro, vem à capital para lançar seu livro “Niterói Rock Underground (1990-2010)” no dia 05 de maio na Livraria Cultura.

Livro que retrata a cena musical independente é lançado em Brasília

Livro que retrata a cena musical independente é lançado em Brasília

AGENDA: Bar da Toinha

Neste domingo tem destruição total no Bar da Toinha (Samambaia)!

É que os amigos do Valdez, Darshan e Evening (GO) tocam JUNTOS em uma tarde de muito ódio e rancor.

Só R$5.

 

 

Bob Dylan. Afinal, foi bom ou ruim?

Eram 21:35 e eu ainda estava na fila, quase na entrada do Ginásio, quando ouvi os primeiros acordes. Para um show marcado para as 21:30, o atraso era ínfimo. Perdi a primeira música inteira no processo de passar pela entrada e me acomodar na arquibancada.


Já sentada, começo a prestar mais atenção no show. A famosa voz rouca do rock e do folk, agora emitida por um corpo de 70 anos, está obviamente mais rouca e mais grave. A acústica do local, que em nada contribui para um bom resultado sonoro, fez com que os técnicos demorassem umas 5 músicas para ajustá-lo a ponto de ficar confortável. A banda que acompanha Dylan tem duas guitarras, um tecladista, baixista e baterista (aliás, destaque total para a cozinha de extrema competência e musicalidade). Para os fãs inveterados, algo de muito estranho; para os que foram sem saber muito do que se tratava, talvez nem tenha feito muita diferença; mas para os que de alguma forma são músicos e conhecem minimamente a trajetória de Dylan, algo estranho porém interessante.


O fato de ter uma banda “grande”, a priori descaracteriza um pouco o som de Dylan. Aqueles que esperavam ouvir os grandes sucessos ao som de gaita e violão e/ou guitarra, talvez tenham se decepcionado. Bob Dylan tocou todas as músicas com arranjos diferentes dos originais. E mal pegou na gaita ou guitarra, mas nos momentos que o fez, o público respondia positivamente. De fato era isso que queriam ver. Em “like a rolling stone” – obviamente a música mais aguardada e que despertou maior resposta do público -, a indefectível gaita só apareceu no final, mas mesmo assim com melodia modificada.


Por conta dos arranjos e andamentos diferentes, em alguns momentos demorava-se um pouco para entender qual era a música. E a evidente falta de interação com o público – ele não pronunciou uma palavra sequer a noite toda -, para muitos deve ter sido chato.


Mas acho que mesmo diante deste panorama, algo precisa ser pontuado. Por mais que seja um pouco frustrante ir ao show e não ouvir os sucessos tal qual foram gravados, acho legal esse lance de rearranjar o repertório. Porque eu acredito que a música é uma obra em aberto. Ela deve ser dinâmica, acompanhar a ordem do dia mesmo. E isso é que faz um verdadeiro espetáculo: a espontaneidade da performance e as novas nuances criadas em cada apresentação. Imagina que saco que deve ser ficar 40, 50 anos tocando as músicas rigorosamente com os mesmos acordes, a mesma levada e os mesmo solos? Acho que nem os metidos a virtuose do metal progressivo aguentam! Acho essa é a verdadeira virtude e o verdadeiro encanto da música: ela é dinâmica; pode ser transformada e reformada a qualquer momento.


Assim sendo, pra quem esteve disposto a olhar o show de ontem com esse prisma, Bob Dylan realmente deu um verdadeiro espetáculo.

Etno no Grito Rock 2012 – por Thaís Mallon

http://www.flickr.com/apps/slideshow/show.swf?v=109615

Roger Waters, 29 de março de 2012.

De 1979 pra cá, o gigantesco muro construído por Roger Waters jamais saiu de foco. Na época em que escreveu The Wall, o baixista passava por uma época conturbada e cria um personagem baseado em si mesmo, Pink. O trauma com a morte do pai, a convivência mãe superprotetora, opressão na escola, problemas com a esposa e o vazio existencial causado pela fama. Tudo isso causa um isolamento da sociedade, metaforizado através um muro.

O próprio Roger Waters se dá conta de que esse muro não se trata apenas dele. Existiam implicações mais amplas para aquelas músicas. Foi por conta desse amplo significado, que Roger Waters dedicou alguns dos shows dessa turnê ao brasileiro Jean Charles de Menezes, morto pela polícia inglesa por ser confundido com um terrorista.

"O medo constrói paredes", mensagem projetada no gigante muro construído durante o show, em "Another Brick In The Wall, Part 2"

As músicas foram tocadas por uma banda de doze músicos – entre eles o tecladista Harry Waters, seu filho – que reproduziam com fidelidade o consagrado álbum The Wall, na ordem exata das músicas e com direito a um intervalo de mais ou menos 20 minutos entre um disco e outro.

O show já começa com fogos de artifício. Na abertura de In The Flesh, surge um avião que vai de encontro ao muro que ainda está para ser construído. O som surround de avião atravessando o Engenhão dá um enorme arrepio e uma sensação de que seus olhos não querem acreditar em tantas coisas espetaculares acontecendo de uma vez.

Era muita informação. Embora tudo fosse projetado no muro, mal podia-se perceber o quão rápido ele foi sendo construído. Quando vi, só havia uma fresta de luz saindo de um buraco sem tijolo. As projeções chamavam atenção aos símbolos que a humanidade carrega consigo. Tanto de caráter religioso, como de consumismo, ou, é claro de guerra.

Os grandes momentos épicos desse show foram em Another Brick On The Wall 2, no qual crianças da Escola de Música da Rocinha cantam um dos refrões mais famosos da história do rock. Em Mother, Roger Waters de 2012 contracena no palco com o Roger Waters da década de 80. E obviamente, o momento em que o muro vai abaixo em The Trial.

Mas, particularmente, o momento no qual eu delirei: Comfortably Numb. Entre as apresentações e animações projetadas, era aparentemente uma das mais simples. Roger Waters anda pra lá e pra cá, de ponta a ponta do palco, brincando com sua sombra. De repente, no segundo solo da música, ele dá um bate no muro. Essa batida faz o muro, nesse momento completamente branco, abre uma pequena fresta a partir de sua mão e se dissolve em cores e mais palas psicodélicas.

Enfim, cada música era um espetáculo. Na forma de bonecos gigantes, ou corais, ou animações. Ou simplesmente a música.

Saiba como foi o Grito Rock 2012, por Antonio Luna

GRITO NA CHUVA

Antônio de Luna Nogueira

Não há dúvida, nada podia tornar o domingo mais brasiliense: aquele silêncio, o tempo
perigosamente nublado, o deserto preguiçoso e, finalmente, DOMINGO. Sim, o próprio: ele se
inclui em sua própria lista e descrição! Afinal, um domingo é também um Domingo, um conceito
(ou vazio de conceitos) de dia e de ânimo. É quando lembramos que as folhas das árvores fazem
barulho quando sacudidas, que pássaros podem ou não voar em grupo, e que o padeiro daquela
nunca abre no domingo… E só por isso nos lembramos dele. Domingo não se confunde nunca.
Segunda-feira que o garanta.

Enfim, não é uma derrota, é um empate. Horas após horas, horas que não passam, horas que se
entulham e se empilham umas sobre as outras, umas sobre as outras… E, de repente, o céu que
desaba e desagua e tudo desanda. Es todo un desmadre, cabrón. “Isso é um aviso” penso entre os
entulhos das horas encharcadas “e talvez uma derrota”. Agora sim, aparece o temido Domingo
de Brasília em todo seu sinistro esplendor, tão fatal quanto a inscrição no portal do Inferno de
Dante: “Deixai toda esperança, ó vós que entrais!” Olho para um relógio e não percebo o tempo.
Brasília está em coma e a profecia do dominical se vê realizada. A chuva toma tudo sem piedade,
encarcerando os temerosos candangos em suas casas sob o temível jugo de um fantasmagórico
Faustão (ou de miríade de filmes ruins, porque domingo o povo da tevê apela!). “Mas pode ser
o momento para um bom livro”, dirão alguns. Pode sim… Mas hoje não. Hoje o domingo ataca a
alma com todas suas armas e o som da chuva ocupa tudo: abro minha boca para falar e não ouço
minha voz. Apenas chuva, apenas chuva… Não. É preciso falar. Falar mais alto que tudo. Mais alto
que a chuva. É preciso gritar.

Junto aos camaradas Marcos Rangel e Paulo Machado, envoltos nas nuvens de uma canção de
tamburins, chegamos flutuando ao Arena, palco do Grito Rock Brasilia 2012, produzido pelo
Coletivo Esquina. Eu participei com minha banda – e inclusive resenhei um dia do evento – no
ano anterior. Devo dizer que sai muito satisfeito. Contudo, desta vez temi que as adversidades
climáticas – que, em Brasília, convenhamos, contribuem em grande parte no desfecho bom ou
ruim de nossas práticas sociais, eventos e tralha e tal… – pudessem comprometer o festival. Os
candangos conhecem sua própria reputação no que diz respeito a eventos em dias de chuva…

O Arena ainda está bem vazio e o show ainda não começou (alívio, porque cheguei atrasado!)
Mas era algo de se esperar. Vou andando, cumprimento aqui e ali e, finalmente, parto em busca
de cerveja. Logo de cara, me espanto com o preço. A cerva não está das mais acessíveis. Mas
suponho que isso é o preço tabelado dos eventos do Arena. Achei antiético. No entanto, minha
falta de caráter falou mais alto do que chuva e preço e acabei comprando uma da mesma maneira.

E assim foi que ouvi, sentado e dando goles medicinais de bira enquanto conversava sobre arte e
coisas da vida, o anúncio da primeira banda.

Arrumei um canto ao lado de um daqueles jogadores de totó vermelhos gigantes que servem de
coluna e apoio cervejeiro (vem cá, fã de futebol inventa cada uma, hein?) e abri os ouvidos …

Johnny Flirt

Ah, enfim! Ouço música, ao invés de chuva! E melhor, rock! Rock do bom. Johnny Flirt tem um
evidente apreço pela pegada britânica do velho agito e balanço (uma livre tradução de rock…) – e
algo de uma banda japonesa chamada The Pillows também.

Vertiginoso e intenso, com ataques precisos, alto, distorcido e barulhento. Por outro lado, é um
som claro – com direito até a fraseados pop algo britânicos e melosos de vez em quando! – onde
cada elemento aparece no lugar certo: é possível perceber a contribuição de cada músico nos
riffs interligados e em diálogo, nos fraseados criativos e melodias atraentes, nas transições bem
articuladas entre partes e músicas, nas linhas de baixo e frases de bateria incisivos… Enfim, na tela
sonora como um todo. Tudo se suporta mutuamente e sem esforço aparente. E, ainda assim, o
som sai cheio de pressão e de urgência roqueira de primeira.

O resultado final é uma química sonora coesa, bem ensaiada e executada. E esta coesão vai além
da música: a união entre os músicos é vísivel. Um excelente indicador de foco é a reação de uma
banda diante de adversidades: se peidar no erro, caga no show. No caso do show do Johnny
Flirt uma guitarra parou de funcionar e uma corda de baixo partiu. O show continuou com toda
naturalidade, energia e showmanship. Isso é uma banda tranqüila. E isso torna o show melhor.

Distintos Filhos

Ainda indignado com o preço da cerveja, resolvi comprar uma outra para esquecer. Fui ver
qual seria a próxima banda. E quando soube, estranhei. Conheço o som dos Distintos Filhos
e, francamente, acho que não combina muito com a sonoridade geral da noite, onde há uma
evidente prevalência de rock e, particularmente, de um rock com orientações mais garage,
rockabilly, brit etc.

Mas enfim! O grupo é bom. Extremamente bem ensaiado e competente na execução de suas
canções, trabalhando bem dinâmicas e usando de maneira consagrada uma grande variedade
de recursos sonoros. No todo, a sonoridade traz consigo um bocado daquele repertório sônico
do rock e pop rock brasileiro dos finais dos anos oitenta e anos noventa, além de bandas mais
recentes, como o próprio Lafusa (aliás, em momentos, os Distintos Filhos trazem elementos muito
semelhantes em suas canções, sobretudo no quesito timbragem).

É um som acessível a muita gente, com o qual muitos podem se identificar. Eu, particularmente,
não sou um grande entusiasta, mas reconheço no trabalho deles grande competência e seriedade.
O som é impecavelmente executado do começo ao fim de maneira muito profissional (aliás,
parabéns ao coletivo pela sonorização que, em muito, ajuda os músicos a darem o melhor de si).

Triturados pelo Coração

Agora esta é uma banda que há tempo queria resenhar. Os caras agitam com um power trio
de 50’s rock com surf, tudo muito bem executado e estudado. Dá para ver a admiração e a
homenagem que a banda presta, com originalidade, aos velhos mestres do então infante rock.
A começar pelo nome – onde nota-se de imediato uma bem humorada referência a nomes
icônicos do rock, como The Heartbreakers ou até o fictício conjunto do Sargento Pimenta… – até
o trabalho musical e de palco.

É possível ver neles referências à nossa jovem guarda e aos primeiros anos do rock americano,
como o som dos Coasters e e do Gene Vincent. Bem aquela época em que o rock bebia o goró de
três acordes do blues, jogava em cima um bourbon com fraseados country e dava liga em tudo
com cerveja e guitarras. Um época mais inocente… Mas já tão inconseqüente.

Frases consagradas, timbres clássícos, solos e fraseados rockabilly com um sabor autêntico. E
nisso tudo, uma vontade de agitar da mesma maneira que os solos, riffs marcantes e olhos tortos
do “Bill Haley and his Comets” agitavam o povo naqueles primeiros anos de rock.

Água de Cachorro

A banda de Minas Gerais tem um som declaradamente acústico, com uma sonoridade bluegrass
ou de hillbilly rock. Uma pegada que pode ser comparada a um Johnny Cash unplugged – mas sem
aquela guitarra venenosa – com influências brasileiras, ou mais especificamente, mineiras. Uma
canção em particular me lembrou o trabalho dos Beat Farmers na canção “Gettin’Drunk.”

O trabalho do violão de aço é atraente, emulando algumas vezes o som de um bandolim. O
acompanhamento do baixo acústico deixa o trabalho mais interessante e original. Já, as letras tem
temáticas nacionais e, junto aos outros elementos citados, acabam gerando uma paisagem sonora
autêntica.

Uma coisa no entanto, tomou minha atenção: o ritmo. As canções tem uma estrutura rítmica
muito semelhante entre elas. E quando pensei nisso, surgiu um pardigma de dois gumes: por um
lado, a banda fez uma escolha de gênero original. Ou melhor, suas influências musicais os levaram
a produzir um som que é relativamente original no Brasil, pois apesar de termos muitas bandas
com influências country rock e blues, poucas exploram o nicho do bluegrass e do hillbilly.

Por outro lado, é também aí, justamente, reside meu incômodo: esse é um nicho estreito
com uma paleta sonora muito específica. E pela semelhança entre as músicas, visível no ritmo
repetitivo, isso parece denotar uma certa “zona de conforto” criativo para a banda. É algo a se
considerar.

Cassino Supernova

Um feedback anuncia com clareza a mensagem logo no começo: rock. Parece repetitivo, afinal
este é o Grito ROCK, pelo amor de deus! Mas mesmo assim, eu conheço os caras, eles tocam bem
e o bagulho é true – resumindo logo a história toda num conceito bruto e monolítico. O show
irrompe e é possível ver que, cada vez mais, eles se tornam notórios saberes – já que não conheço
doutores em rock… – de seu gênero: rock à rolling stones, com algo de um rockabilly, um finória
de raulzito aqui e ali, tudo misturado com aqueles ingredientes basais do rock, como o bom humor
na letra e na melodia – uma melodia é uma frase, né não?

Timbres bem escolhidos, bem estudados, fraseados de bom gosto. Um som que dialóga com a
platéia tanto em energia quanto musicalidade. Entre aprimeira vez que os resenhei e esta atual
resenha, percebo uma audível e visível diferença, uma maior maturidade sônica que, ainda
assim, não perde sua personalidade diante de algum pretenso aprimoramento sonoro, de uma
suposta “seriedade musical” (aliás, já mencionei algo semelhante sobre eles numa resenha
anterior). Aqui não, tanto em visual – o excêntrico cabelo a la cuia continua firme e forte! – quanto
em sonoridade é possível perceber uma banda concentrada, focada, tocando um rock enérgico,
bem executado e, mais que nada, à sua maneira.

Um rock à Supernova: explosivo.

Lamentavelmente, tive de ir embora do show antes da hora e não pude o show da ETNO… Fico
com essa dívida sonora! No entanto, no fim das contas, ainda que meio vazio por conta da aguda
aversão – olha a ironia! – que a chuva provoca ao povo candango, o festival contou com bandas
muito boas, concentradas, enérgicas, oferecendo excelentes espetáculos e empenhadas em fazer
aquele rock gritar sempre mais alto.

Fotos: Os Triturados pelo Coração, no Grito Rock Brasília 2012, por Isabelle Araujo

Agenda: Cassino Supernova Festa Show

Festa Show com Cassino Supernova

Dia 29 de março de 2012, quinta-feira, às 21hs (bar aberto a partir
das 19 horas).
Festa dedicada ao Indie Rock com a banda Cassino Supernova. Abrindo o
evento terá a banda Bife a Bolonhesa, de Taguatinga e, durante os
intervalos e encerrando o evento, os djs toticore, Lamim (Enema Noise
DJ Set) e Share This Breath.
Onde: Cult 22 Rock Bar, Centro de Atividades 7, Lago Norte
Ingressos: 5 reais até as 22h, 10 reais até as 24h e 15 reais após.
Informações: 8244-4985.

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