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Números do Rolla Pedra

por Pedro Branco

Não sou adepto da idéia de avaliar o sucesso de uma empreitada com números. Ainda menos de uma empreitada que, para muitos (ou para todos), vale simplesmente pela realização de um sonho. Nesses casos, a matemática é tão exata quanto a história, e, como Salvador Dalí já diria, “a inteligência nos faz desembocar apenas nas névoas do ceticismo, que ela tem por efeito principal reduzir-nos a coeficientesde uma incerteza gastronômica e supergelatinosa, proustiana e malsã” (DALÍ, 1956).

Total de edições do Rolla Pedra: 10

Nº de bandas que já se apresentaram no festival: >400

Nº de bandas que se apresentaram nesta edição: 50

Nº de bandas de Brasília que se apresentaram nesta edição: 43

Público médio do festival: ~4.000 cabeças

Público estimado na Σ dos 3 dias desta edição: ~10.000 cabeças

Total de alimento arrecadado: ~12 toneladas

Total arrecadado em vendas na banquinha do Coletivo Esquina: R$ 1.858,00

Nº máximo de visualizações simultâneas no livestream (http://www.livestream.com/tvesquina): 46 (2º dia)

Parabéns para nós!

Festival Rolla Pedra, em Brasília (Scream & Yell)

texto publicado no Scream & Yell

por Tiago Agostini

Nos anos 80 e 90, Brasília se acostumou a ser berço das maiores bandas de rock do Brasil. Primeiro foi a Turma da Colina, de onde, entre Capital Inicial e Plebe Rude, surgiu a indiscutível maior banda de todos os tempos: Legião Urbana. Já nos 90 a cidade teve bons momentos com o Natiruts e, vá lá, o Maskavo, mas quem deu as cartas mesmo foram os Raimundos, dando voz a toda malícia adolescente em forma de punk/hardcore do bom. Para comemorar os 50 anos da cidade, festejando e relembrando esta história, o festival Rolla Pedra, entre os dias 10 e 12 de dezembro, apresentou uma programação majoritariamente de bandas de Brasília, com 50 shows em três dias, de graça e na Esplanada dos Ministérios.

O primeiro dia ficou restrito ao metal e hardcore. Muito barulho, poucas ideias. O grande destaque foi o Galinha Preta, uma das bandas mais divertidas do País. Com um som rápido e urgente, letras simples e engraçadas e a performance genial do vocalista Frango, tivesse um pouco mais de ambição e a banda seria grande. Após o Galinha, a programação anunciava uma ópera metal. Logo, o show intimista do paulistano Thiago Pethit em um bar próximo parecia mais atraente.

Talvez tenham sido as seis horas de distorção e barulho anteriores, mas acompanhado apenas de teclado e um eventual acordeom, o som meio cabaré do paulistano soou bem, principalmente nas letras em português de versos curtos como “Não Se Vá” e “Fuga Nº1″. Pethit, no entanto, há de cuidar da produção de seus discos. Sentado sozinho ao piano, cantando uma versão de “Bad Romance”, de Lady Gaga, a comparação com a diva pop foi inevitável: os dois possuem boas canções que se perdem entre os efeitos de estúdio.

O segundo dia foi o mais esquizofrênico da programação. Bandas como Watson e Suíte Super Luxo mereciam mais sorte: fizeram bons shows para um público diminuto e disperso, que só foi se aglomerar em frente ao palco quando as guitarras distorcidas do Trampa e do Etno soaram. Não que as duas, com seu pastiche de Rage Against The Machine, merececem a ovação. Antes da atração principal, o Móveis Coloniais de Acaju, o Camarones Orquestra Guitarrística mostrou seu surf-rock competente e contagiante e a cantora local Ellen Oléria impressionou com uma potência e afinação difíceis de achar por aí.

E aí o Móveis entrou no palco para lançar seu primeiro DVD, gravado ao vivo no Auditório Ibirapuera. Se a Legião foi a cara da Brasília dos anos 80 e o Raimundos dos 90, o Móveis personificou a primeira década dos anos 2000 na cidade. Com seu show sempre enérgico e envolvente, a banda comandou uma plateia que não deixou o clima esfriar nenhum minuto. É difícil não esbarrar nos clichês para falar de um show do Móveis: o carisma e a entrega da banda no palco não tem pares no rock brasileiro, a constante movimentação dos músicos contagia, a participação do público em todo o show impressiona. Adjetivos como apoteótico não são deslocados ou superlativos. O Móveis tem o melhor show do Brasil, e isso não é novidade há anos.

Para encerrar o festival, a programação de domingo foi a mais equilibrada, reunindo bandas mais pop e revivendo heróis do rock local. Os destaques ficaram por conta de Pedrinho Grana e Os Trocados, com uma sonoridade que resvala no rock gaúcho, e Os Gramofocas, com um punk honesto. Pequenas decepções para o Sapatos Bicolores: eles até tem um bom show, mas a performance vocal do guitarrista André atrapalha; e com o Lucy And The Popsonics, que não consegue transpor para o palco seu rock eletrônico.

O relógio marcava quase 21h30 quando o Little Quail And The Mad Birds subiu ao palco escudado por umas 20 pessoas no coro de abertura com “1, 2, 3, 4″. Em pouco mais de uma hora, Gabriel Thomaz, Zé Ovo e Bacalhau relembraram os divertidos anos 90 e deixaram a dúvida de por que, mesmo com disco lançado pelo Banguela, a banda não vingou no cenário nacional. O público, extasiado com hits-punk-indies como “Família Que Briga Unida Permanece Unida”, “Aquela” e “Galera do Fundão”, não deu bola se aquilo era pura nostalgia e pediu um bis acalorado.

Teria sido melhor acabar o festival por ali. Como última apresentação, um desfigurado Plebe Rude fez um show modorrento e arrastado. Nem mesmo o bis, com “Até Quando Esperar”, elevou a qualidade da performance – embora o público não tenha arredado pé do local. O Rolla Pedra terminava com uma até bonita homenagem à história, mas o festival mostrou que Brasília não precisa reverenciar apenas os heróis do passado, já que a cena atual é prolífica.

Propondo-se a traçar um panorama do atual cenário de Brasília, com localização central e privilegiada, ao lado da rodoviária e do Teatro Nacional, em uma cidade onde um carro é quase item obrigatório de sobrevivência, o festival pecou principalmente pelo grande número de bandas. Tudo bem que cada uma das 50 bandas representava um ano da cidade, mas aguentar 18 shows em um só dia, como no sábado, é tarefa hercúlea. E perde-se o foco. Fato curioso: nos bastidores circulava a história de que Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá chegaram a ser cogitados como atração de encerramento do festival. O Rolla Pedra teria ficado pequeno para tanto choro.

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– Tiago Agostini é jornalista e assina o blog A Balada do Louco. Fotos de Naiane Martins (flickr)

O Valor. Móveis Convida Rolla Pedra por Pedro Branco.

Agradecer significa aprender a dar o valor das coisas às coisas. Sem aprendizado, o agradecimento é apenas um verbete da língua portuguesa que utilizamos de maneira política para evitarmos atritos desnecessários em situações de conflito. Agradecer é dar o devido; é retornar à origem. Nada superior. O agradecimento é terreno, horizontal: descansa sem esforço nas palavras que dizemos olhando nos olhos, enquanto o sangue circula, cada um separado do outro, em pulsações que se alternam sob nossas mãos que se tocam por segundos, mãos que manusearam tantas outras coisas. Mãos que não se despedem quando se afastam.

Digo isso porque agradeço. Agradeço pessoas, não nomes, e, por isso, não acho que vale a pena listá-los aqui, porque, como nos créditos dos filmes, cada pessoa, cada participação, cada litro e meio de suor que alguém deu pra fazer aquilo acontecer, fica resumido em uma dúzia de caracteres que correm, rápidas, para o topo da tela, enquanto os espectadores vão deixando a sala, indiferentes; nós, que fizemos, em pé, atrás da tela, alvos de olhos que não nos conhecem e não nos vêem. Não quero sujeitar essas pessoas à indiferença, não quero resumi-las em alguns caracteres do insosso alfabeto latino. Elas podem não saber quem são, mas eu sei, me lembro de cada uma. E agradeço, porque aprendi, com cada uma, o seu pouquinho.

A todos que colocaram seu tijolinho para fazer o Rolla Pedra acontecer, parabéns. Vocês viram, vocês sabem. Não há nada mais que eu possa falar sem correr o risco de parecer supérfluo. Vocês viram, vocês sabem.

Agora é o futuro. Vida longa ao Rolla Pedra, esse palco onde colocamos em ação nossos sonhos: nossa música, nossa atitude, nossas esperanças de ver esta cidade e este país invadidos pelos próprios filhos deste solo. Podemos, sim, ser fãs dos nossos vizinhos. Não precisamos de ídolos inatingíveis, precisamos de pessoas como nós, que nos ofereçam aquilo que lhes cabe. Precisamos de menos pretensão. Queremos música, queremos viver a música. E enquanto alguns já estão correndo atrás, outros de nós só estão esperando um festival desses pra botar pra frente aquela banda que nunca saiu do papel. E se não der certo, tá tudo bem ainda.

Este é um sonho que eu vivo.

E para quem olha com descrença para esse sonho, olhe de novo. Está acontecendo, querendo vocês ou não, e em breve sairá do nosso controle. Mas, por ora, passou. Para todos que estavam lá fica aquela sensação (que eu imagino que deva se parecer com a de ser um super-herói) de ter participado de algo monumental, de ter salvo o dia. Talvez tenhamos feito história nos últimos três dias. Para mim, não importa mais do que ter simplesmente tido a oportunidade de dividir o meu tempo com pessoas tão fodas que estão sonhando juntas e fazendo acontecer.

A vocês,

muito obrigado.

por Pedro Branco

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